O primeiro-ministro considerou que tem havido solidariedade institucional "irrepreensível" entre Governo e Presidente da República, com trabalho conjunto nas horas boas e más, e que os incêndios provocaram "um choque coletivo".

António Costa falava durante a apresentação de cumprimentos de boas festas pelo Governo ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, na Sala dos Embaixadores do Palácio de Belém, em Lisboa, numa cerimónia que contou com a presença da maioria dos ministros e de três secretários de Estado.

O primeiro-ministro referiu-se às relações com o chefe de Estado logo no início da sua intervenção, declarando: "Reafirmamos aquilo que deve ser o bom relacionamento entre órgãos de soberania e a forma irrepreensível como a solidariedade institucional se tem manifestado entre o Presidente da República e o Governo, entre o Governo e a Presidência da República, ao longo destes dois anos em que temos trabalhado em conjunto, quer nas boas horas, quer nas horas más".

"Obviamente, toda a vida é feita de bons momentos e de maus momentos. E este ano foi também assim. Foi um ano em que tivemos importantes sucessos, mas em que vivemos traumaticamente a maior tragédia humana provocada por catástrofes naturais de que qualquer um de nós tem de nós", acrescentou.

Segundo António Costa, os incêndios foram um acontecimento traumático para as populações atingidas, mas também para o conjunto do país, que "descobriu vulnerabilidades que porventura desconhecia, de um interior desvitalizado, de uma floresta desordenada e de sistemas públicos que precisam claramente de aperfeiçoamento".

"Foi um choque coletivo para todos nós. Mas foi um choque coletivo que, simultaneamente, não diminuiu a capacidade do país de reagir nas horas más e de responder", considerou.

O primeiro-ministro defendeu que o país respondeu aos incêndios com "exemplos notáveis" de entreajuda e com "uma onda de solidariedade" nacional, "num grande esforço de reconstrução e resiliência".

No seu entender, essa resposta "foi uma grande lição coletiva também para todos nós, é certamente um motivo de orgulho".

"Temos, por isso, de entrar em 2018 bem cientes das enormes responsabilidades que temos, de continuar a responder à emergência, acabar de construir o que está a ser construído, de fazer renascer o que já está a renascer. Prevenir que em 2018 não se volte a repetir o que de inaceitável aconteceu em 2017", afirmou.

António Costa comprometeu-se também a "trabalhar para o legado de médio-longo prazo", para que Portugal tenha "uma floresta ordenada, um interior revitalizado", como "crescimento económico duradouro, sustentado" que beneficie todo o território.

Solidariedade entre Presidente e Governo "correu bem"

Marcelo Rebelo de Sousa considerou que a solidariedade institucional entre Governo e Presidente da República em 2017 "correu bem" e que o povo português deu sinais de que gosta dessa solidariedade e da estabilidade política.

Antes de discursar, o chefe de Estado ouviu o primeiro-ministro manifestar empenho em prosseguir "a forma irrepreensível como a solidariedade institucional se tem manifestado" entre Presidente da República e Governo.

Marcelo Rebelo de Sousa não usou a expressão "irrepreensível", mas disse concordar com António Costa e considerou que "a solidariedade institucional durante este ano de 2017, também nas relações entre o Presidente da República e o Governo, correu bem".

"E só podia correr bem. Decorre da lógica da Constituição, pelo menos, da minha leitura da Constituição, que a solidariedade institucional tem de correr bem. É a Constituição que o impõe e tem de correr bem e correrá bem até ao fim do meu mandato, nesta legislatura e na próxima legislatura", acrescentou.

Em seguida, o Presidente da República sustentou que, ao longo deste ano, "o povo português deu sinais de que gostava da solidariedade institucional", referindo: "Podia não gostar, mas gosta".

"Sente-se seguro e sente-se confiante com a solidariedade institucional. Depois, gosta da estabilidade política", defendeu.

De acordo com Marcelo Rebelo de Sousa, 2017 foi um ano em que o povo português "disse claramente o que queria" e, por isso, "não foi muito difícil ao Presidente da República saber interpretar o que o povo português queria, nem é difícil a todos os órgãos de soberania saber interpretar o que ele quer, no presente e para o futuro".

"Porque ele é muito claro naquilo que diz. E diz, vivendo o seu quotidiano e deixando cair a sua mensagem, de forma implícita, na maneira como vive. Não é preciso haver expressões, ainda que tenha sido um ano eleitoral", prosseguiu.

Referindo-se às eleições autárquicas de 01 de outubro, em que o PS foi o partido com mais votos e mais eleitos, Marcelo Rebelo de Sousa alegou que, "independentemente disso, antes e depois, os portugueses, pela maneira como viveram este ano, disseram o que queriam e o que não queriam".

"Trata-se, agora, de estar à altura da sua mensagem. Um feliz Natal e um ano de 2018 que possa continuar a corresponder às legítimas expectativas dos portugueses, porque é por causa deles que aqui estamos", concluiu.

Nesta intervenção, o chefe de Estado considerou também que o povo português "quer estabilidade financeira", e já interiorizou "a prioridade da estabilidade orçamental", e "quer estabilidade social".

Marcelo Rebelo de Sousa voltou a alertar para "surtos inorgânicos" e fenómenos "de contestação fora do sistema" presentes noutros países europeus, defendendo que para isso é fundamental manter-se a proximidade entre os cidadãos e os responsáveis políticos.