A notícia do dia deu mais garra ao Partido Socialista no ataque à coligação. A alegada maquilhagem de contas da Parvalorem, ocultando prejuízos do Novo Banco para melhorar o défice de 2012 – que o Governo negou – deu pano para mangas não só para criticar o caso em concreto, mas para daí traçar e confirmar o retrato que o PS faz de Passos, Portas e Maria Luís.

"Há uma coisa de que eles podem estar certos. A senhora ministra das Finanças poderá martelar as contas para disfarçar o défice de um ano. Aquilo que não disfarçará é a dor sentida por milhões de portugueses”. António Costa a apelar ao sentimento, no comício mais concorrido até agora, com certamente mais do que 1.500 pessoas, depois de uma descida da Morais Soares que cheirou bem, cheirou quase a Lisboa.

"Pensavam que passava tudo de mansinho. Os portugueses tiveram muitas desilusões nos últimos anos e têm agora o direito a exigir aos políticos e a quem se candidata a primeiro-ministro que diga com clareza ao que vai e que explique com clareza como pretende efetivamente cumprir"


Antes, o histórico socialista Manuel Alegre não o deixou o vento passar e foi acutilante na trova: “Com a coligação não fica tudo na mesma. Fica tudo pior, eles não têm emenda. Trazem também a mentira e a manipulação. Eles mentem, eles mascaram as contas. Viu-se hoje: dizem e desdizem sem pudor e sem vergonha”.

O veterano não tem dúvidas: os poderosos estão contra o PS.  “Não estamos apenas a lutar contra a coligação”. “Não foi por acaso que Bruxelas lhe deu uma ajuda”, ao Governo, no caso do défice que disparou por causa do Novo Banco.

“Estão todos a jogar para o mesmo lado, bancos e empresas, contra os direitos das pessoas. Não estamos apenas a lutar contra a coligação. Estamos a lutar contra interesses económicos, financeiros e mediáticos. O PS não tem empresas de sondagens”

Alegre classificou a atual direita de "revanchista", para a qual "nós somos o lado mau e subversivo da história", "os esconjurados de 1940 e o 25 de Abril, Jesus", ironizou, sugerindo que para além dos feriados de 5 de Outubro e 1 de Dezembro que a coligação retirou - e que Costa já disse que vai repor - "seria muito possível que suspendessem outros dois feriados: o 1º de Maio e  o 25 de Abril" caso ganhassem as eleições. "É isto que está em causa", disse o poeta.

Foi também mais um dos socialistas - Costa incluído - que têm vindo, nos discursos dos comícios, a puxar as orelhas à CDU e Bloco de Esquerda. Isso foi mais vincado hoje. 

"Estão a fazer um grande frete à direita portuguesa. Sempre defendi a união entre as forças de esquerda. Mas nós não nos enganamos neste combate.  Nós não estamos neste combate para derrotar as outras forças, estamos neste combate para derrotar a coligação de direita". Alegre terminou ainda com um pedido claro e direto ao voto útil:  

"Não desperdicem os votos. Só o PS e António Costa estão em condições de derrotar a direita. Esta é a hora de o país dizer que o PS não tem medo. Não cede nem a chantagens, nem a sondagens. O PS não se rende". 

Costa também entrou nessa dramatização sobre o que está em causa nestas eleições: "Não nos conformamos com a ideia de sermos pobrezinhos. E por isso recusamos a alternativa à esquerda e à direita: uns dizendo que teriamos de renunciar a tudo para nos conservarmos no euro, outros a dizer que tínhamos de renunciar ao euro para virar a página da austeridade". O candidato propõe-se a virá-la, mantendo o país no euro, "mas com caminho que não se resigna". Recebeu vivas e gritos de "Eu confio, eu confio, eu confio" em troca, por parte dos presentes. 


O levantamento de Costa, o homem que gosta da política que faz

Comparando a sua atuação com a dos membros da coligação Portugal à Frente, António Costa ironizou que Passos e Portas, agoram "aparecem tão condoídos e sensíveis com aqueles a quem não deram a devida atenção nestes quatro anos". Mais uma oportunidade de lembrar a famosa frase dos "piegas" que "de forma cruel impiedosa" chamaram os portugueses. "Por isso, agora vão votar contra vocês!", exclamou, dirigindo-se à à PAF/Governo.  

Como em todos os discursos, o líder socialista voltou a congratular-se pelo seu programa "escrito" e com "as contas feitas", dizendo que "cada um pode manter em casa e pedir contas ao longo dos próximos quatro anos". 

A sondagem pela qual se guia, disse, é a que tem feito nas ruas: "E esse levantamento (…) em todo o país é, em primeiro lugar, um levantamento em nome do futuro. É tempo de termos um Governo com os olhos postos no futuro", que não pode "renunciar ao investimento fundamental": na educação formação profissional, ciência e cultura, detalhou.

Costa contou ainda, com nova ironia, "uma das críticas mais extraordinárias" que tem ouvido:

"É como é possível que eu faça uma campanha com contas e em vez de falar em números por que não distribuo promessas. Não com contas, mas com demagogia. Não é assim que eu faço campanhas eleitorais. Há uns que gostam mais de outro estilo. Eu gosto desta minha maneira de fazer política"


Que as vitórias que tem no seu currículo atestam, fez questão de dizer: "E creio mesmo que foi por isso que em três eleições sucessivas em Lisboa ganhei cada uma com mais votos do que a anterior. E que fiz sempre mais do que tinha prometido".