O PSD não deixou escapar a polémica sobre a intervenção do amigo pessoal de António Costa, Diogo Lacerda Machado, em negócios que envolvem o Estado português. E foi logo por aí que começou o ataque dos sociais-democratas ao primeiro-ministro, durante o debate quinzenal, pela voz de Luís Montenegro. O primeiro-ministro assumiu que "quem não deve não teme".

Lacerda Machado, ex-secretário de Estado da Justiça, foi negociador do primeiro-ministro tendo colaborado nas negociações da TAP, dos lesados do BES e no processo do BPI.

O líder parlamentar do PSD acusou o primeiro-ministro de falar de assuntos do Estado na forma de "conversa de café", dizendo que este é "mais um caso em que a palavra dada não foi a palavra honrada".

O PSD quer ouvir Lacerda Machado a 27  de abril, mas o PS tem dito que a polémica não tem fundamento. 

Para o primeiro-ministro, "quem não deve, não teme".

"Quando entendei e reconheci que a melhor forma e de não haver insinuações, equívocos ou qualquer dúvida sobre a forma como o Dr. Lacerda Machado coloborava comigo, ordenei e determinei a celebração de um contrato de cosultor com o meu gabinete (...) está desde ontem publicado na Base de Dados da Contratação Pública e trago aqui uma versão impressa para que o senhor deputado possa conhecer e para que não haja dúvidas"

A polémica em torno do negociador e amigo de António Costa começou com as críticas do PSD, que condenou o facto de Diogo Lacerda Machado ter representado o Estado de forma informal. Luís Montenegro ironizou, perguntando se não parecia "uma conversa de café". 

O primeiro-ministro revelou, numa entrevista à TSF e ao Diário de Notícias, que assinou um contrato com o jurista, mas lamentou que, agora, o Estado tenha de gastar dinheiro que poderia ter poupado.

Os sociais-democratas reagiram à resposta do chefe do Governo, sublinhando que queriam analisar o contrato em causa. O PSD exigiu mesmo a presença do jurista no Parlamento, alegando que, na “qualidade de negociador”, é a pessoa certa para prestar esclarecimentos sobre o processo negocial da TAP.

"O PSD devia ter pudor em falar em transparência"

Luís Montenegro disse ainda que o "padrão desta maioria" é faltar ao "escrutínio", dando ainda o exemplo da recusa do PS de ouvir o Chefe de Estado-Maior do Exército no Parlamento. "Nunca em situações análogas rejeitámos a fiscalização da Assembleia da República", atirou o líder parlamentar social-democrata.

Recebeu resposta de Ana Catarina Mendes, pelo PS, que hoje substituiu Carlos César, ausente do Parlamento: "O PSD devia ter pudor em falar em transparência", disse, remetendo para audições travadas pelo PSD no passado, quando era o partido no poder.

Sobre as críticas feitas pelo presidente do Grupo Parlamentar do PSD à decisão da esquerda parlamentar de travar algumas audições na Assembleia da República, Ana Catarina Mendes contrapôs que os sociais-democratas estavam a revelar "falta de pudor".

"Quantas audições travou a anterior maioria PSD/CDS no parlamento por causa do caso [Miguel] Relvas. É preciso ter pudor para falar em falta de transparência", reagiu.

A secretária-geral Adjunta do PS criticou também o PSD por ter usado a expressão "social-democracia sempre" para lançar publicamente o seu último congresso nacional.

"Estranha social-democracia a do PSD, que é contra a devolução da sobretaxa em IRS, contra a reposição de salários, contra o aumento do complemento solidário para idosos, contra o aumento do rendimento social de inserção, contra o aumento do abono de família, contra a gratuitidade de manuais escolares e contra a proibição de penhora de casas de morada de família. Transformaram-se no partido do contra", disse.

Ana Catarina Mendes acusou ainda a anterior maioria PSD/CDS-PP de ter deixado como "herança" ao atual executivo "um buraco" no sistema financeiro português e defendeu que o padrão político dos sociais-democratas se define em duas propostas recentes que apresentou: uma para "reduzir a tributação autónoma sobre rendimento variável que tome forma de participações no capital da empresa" e outra para "reduzir em sede de IRS a tributação de dividendos e das mais-valias do escalões mais baixos de rendimento para incentivar a poupança".

Uma semana de "muitos problemas"

Esta foi uma semana "onde surgiram muitos problemas", admitiu o primeiro-ministro, aos jornalistas, depois do debate quinzenal, referindo-se à remodelação governamental e a todos os temas quentes que têm surgido.

"Felizmente chegamos ao final da semana com todos os problemas resolvidos e dúvidas resolvidas na espuma dos dias", afirmou, deixando ainda mais uma nota:

"Este Governo não esconde os problemas. O primeiro passo para resolvê-los é assumir que eles existem"