Mal a arruada do PS começou em Viseu, frente ao Teatro Viriato e à Escola Secundária Emídio Navarro, um grupo de seis jovens gritava, batendo palmas: PSD, PSD, PSD. Repetidamente. António Costa não terá ouvido. Estava rodeado da máquina bem oleada da Juventude Socialista e de dezenas de apoiantes. Começava a subir a Rua Direita, a mais torta e mais estreita numa cidade que sempre virou com velocidade na curva laranja. E que tem 9 deputados para eleger.

São precisamente os caminhos tortuosos que preocupam estes jovens do secundário, na terra conhecida como o Cavaquistão. Querem Passos Coelho lá mais tempo, condenam as promessas socialistas que consideram irrealizáveis. Argumentam com o despesismo de Sócrates. 
 
Um apoiante socialista não gostou da perturbação da arruada socialista: "Tenham respeito!". Esteve também atento à cobertura mediática e chegou a perguntar aos jornalistas de onde vinham, por estarem a registar as situações menos favoráveis ao PS.

Costa ia entrando e saindo de lojas e cafés, encontrou sorrisos, pessoas mais contidas, deu vários beijinhos e apertos de mão. Até uma selfie tirou com jovens estudantes. 
 
Foi, apesar disso, uma arruada contida. A comitiva que o acompanhava também ia fazendo um ou outro sinal de que àquele restaurante não era preciso ir. Entre os próprios apoiantes sentia-se e verbalizava-se isso mesmo: "Está tudo muito calado. Vamos falar", incitou uma mulher. "Força na maionese", acrescentou outro militante. "Vamos lá ver se isto fica melhor", afirmou mais um. "Vai ficar melhor no dia 4", disse, bem mais convicta, uma apoiante. 

O líder do PS ainda protagonizou um momento de humor, ao dar um passou bem, como se diz aqui, à armadura de um soldado, plantado à porta de um restaurante. "Este já não vota", gracejou. 

Houve quem dissesse com convicção que nele ia votar, mas em alguns casos com avisos: "Força e não se deixe intimidar pela direita" ou "Às vezes são tantas as promessas". Costa respondeu:

"Não há nada a fazer. Ou se cumpre ou se tem o castigo".


Um dos momentos que marcou a arruada foi o cumprimento e a conversa com um ex-toxicodependente com problemas motores que lhe pediu ajuda. O homem fez questão que o senhor Ruas (o antigo presidente da Câmara, PSD de gema), o ajudou, mas quer assegurar-se que o próximo primeiro-ministro não descura quem mais precisa. Quis dar o número de telemóvel a Costa. Ele apontou.
 
Logo a seguir, uma encenação montada pela Juventude Socialista, pela primeira vez nesta campanha: a porta da alternativa de confiança, a estrada para lá chegar, o banco de "Portugal não pode mais ficar sentado" - uma sátira ao slogan da coligação Portugal à Frente - e as grandes metas: mais Justiça, Saúde, Educação, Emprego, Igualdade.
 
 
No almoço-comício num hotel, Costa disparou em direção a Passos e voltou a dizer que não reduzirá as pensões. Um dia depois do arranque do ano letivo, explicou  a diferença entre dois verbos, cortar e poupar, num novo recado ao primeiro-ministro. 


O bom exemplo


A tarde foi dedicada a uma visita à fábrica Euroalex, em Carregal do Sal, uma unidade fabril familiar, de têxteis, com 30 anos de existência. Um bom exemplo: exportadora e inovadora. Desenvolveu um sistema informático de controlo da produção através de qualquer tablet ou smartphone, numa parceria com a Universidade de Aveiro.

Com mais de duzentos trabalhadores, a maioria mulheres, muitas têm 20 e 30 anos de casa. Bastantes jovens, também. Fazem casacos e calças, sobretudo. Com ritmo, mecânica, concentração.

Dizem-nos que ganham praticamente todas o ordenado mínimo, mas vestem a camisola. "Com planeamento as pessoas corroboram. À segunda-feira dizemos que temos estes objetivos para cumprir até sexta. As pessoas sabem e cumprem", refere o filho dos fundadores, que está à frente da empresa. 

90% têm contratos efetivos. Ora uma das acusações que Costa faz ao Governo é de ter deixado a economia num estado tal que a dinâmica atual é de contratos a prazo, estágios, recibos verdes. Aqui não é assim. 

"Nem sei como outras empresas conseguem não ter. Perde-se muito tempo a ensinar uma aprendiz. Como eu digo, estão seis meses a soletrar e só depois começam a juntar as letras", observou a fundadora. Costa corroborou: "O custo de formação é enorme para ter uma rotatividade tão grande". 

O líder do PS ainda deixou cair um casaco, mas rapidamente o apanhou e colocou no cabide. Também quer agarrar os votos dos portugueses, numa altura em que as sondagens estão a aumentar a vantagem para a coligação PSD/CDS-PP. Entre as funcionárias, uma socialista ainda indecisa:

   

Ruas vazias, passo apressado


Paragem de final de tarde: Santa Comba Dão. Terra de Salazar. Visita os bombeiros. Costa entrou num helicóptero Kamov. As objetivas captaram, bem como a conversa com o presidente da câmara socialista. Incêndios: "Desde 2006 para cá, houve uma redução brutal da área ardida", observou o candidato a primeiro-ministro. 

 
Pouca gente na rua, a arruada menos concorrida até agora. Via-se um aglomerado de gente, mas era do aparelho e a JS. Costa cumprimentou meia dúzia de pessoas, não entrou em cafés nem em lojas. Poucos minutos e passo apressado.

Numa terra onde paira a sombra da direita, um comerciante confessou-nos: "Com a porta aberta, a gente tem que dizer que gosta de todos. Mas vou dizer-lhe uma coisa, não filme. Sou de outro partido. Mas até ao dia 4 vamos lá ver".