O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Amado disse em entrevista à Antena 1 que as divergências entre Rui Machete e a procuradora-geral da República sobre investigações judiciais a altas figuras angolanas são «fait divers».

Em entrevista que será emitida a partir das 10:00 de hoje, Luís Amado minimizou o incidente entre o atual chefe da diplomacia portuguesa e Joana Marques Vidal, depois das declarações do membro do Governo à Rádio Nacional de Angola, em que pediu desculpa pela investigação de cidadãos angolanos em Portugal.

«Temos tantos interesses para projetar para o futuro com Angola. Acho que devíamos concentrar-nos mais nessa realidade», afirmou, acrescentando que «se fala demasiado de Angola e se dá demasiada importância às relações com Angola na vida pública portuguesa».

Luís Amado comentou ainda a decisão, anunciada na terça-feira do Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, de terminar a parceria estratégica com Portugal, considerando que «revela um desconforto».

«É um sinal claro que é dado. É um sinal político que revela um desconforto, uma falta de harmonia na relação com o país, que não corresponde às expetativas provavelmente», declarou à Antena 1.

Amado disse ainda que não compreendeu «bem o contexto» em que o PS exigiu a demissão de Rui Machete e opinou que «a área da política externa devia ser preservada no debate político interno».

No comentário à realidade atual de Portugal, Luís Amado sustentou que o PS "não pode vender ilusões como o Governo" da coligação PSD/PPD-CDS/PP.

«Não se criem ilusões relativamente ao que pode ser a posição do PS relativamente a grandes compromissos com o problema de financiamento do país no futuro, porque aí está o erro que este Governo cometeu, que foi criar expetativas e ilusões irrealistas em relação a uma governação alternativa àquela que o PEC IV e o Governo a que pertenci na fase final se comprometia», afirmou o ex-ministro do Governo socialista chefiado por José Sócrates.

Luís Amado sublinhou que as expetativas goradas do Governo de Passos Coelho geraram «frustração» e «muita da desilusão que grassa no país».

Por essa razão, o socialista referiu que «o PS não pode cometer o mesmo erro, que é criar expetativas irrealistas em relação a que pode ser o Governo seu, num contexto de enormes constrangimentos como aqueles que vamos ter durante vários e largos anos».

O ex-ministro considerou que as circunstâncias impõem «um grande compromisso entre as principais forças políticas nacionais» e disse que, se os partidos que compõem a atual coligação no poder não se tivessem entendido em junho último, teria havido uma crise política, eleições antecipadas e inevitavelmente «um governo verdadeiramente de emergência nacional».

Segundo Amado, esta possibilidade é real, «se as coisas correrem mal no próximo ano».