Maputo tem água na torneira três a quatro dias por semana, mas ainda há quem a utilize para lavar carros, um negócio de rua que se encontra pela capital de Moçambique, para espanto do ministro do Ambiente de Portugal.

Vi ali um sítio a lavar carros e até me doeu a alma", disse esta terça-feira João Matos Fernandes, durante uma visita a obras financiadas por Portugal para reforço do abastecimento de água. "É melhor os carros andarem com pó, porque essa é mesmo a última utilização que devemos fazer da água quando ela falta", acrescentou, perante dirigentes do Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água (Fipag) de Moçambique, que alinham pela mesma posição.

De tal forma que o investimento em ações de sensibilização sobre "poupança e formas de utilização da água" é uma prioridade para o Fipag, referiu Pedro Paulino, diretor-geral do organismo.

Samuel Matavel, responsável pelo negócio de lavagem de carros que surpreendeu o ministro português do Ambiente, diz que não tenciona deixar de os lavar.

Esse é o nosso trabalho. Precisamos de água para lavar" porque, senão, "não há dinheiro para levar para casa" ao fim do dia.

No meio deste dilema sobre o uso da água, Portugal apoiou Maputo com 525 mil euros em 2017 para reforço de emergência na abertura de furos, reativação de captações e tratamento.

João Matos Fernandes visitou hoje algumas das obras realizadas com aquele financiamento.

Este ano vão ser atribuídos mais 500 mil euros, metade para continuação daquele trabalho de emergência - uma vez que a crise de água se mantém -, e outra metade para ações de formação.

A reativação de captações foi uma solução recomendada hoje pelo ministro do Ambiente português para acudir à falta de água nas torneiras em Maputo, à semelhança do que também está a ser feito em Portugal, referiu.

Os sistemas modernos de tratamento permitem manter a qualidade, mesmo que haja maior diversidade de origens, e redes mais pequenas baseadas nesses furos ou noutras captações são também mais fáceis de manter e gerir, concluiu João Matos Fernandes.

O ministro do Ambiente de Portugal subscreveu na segunda-feira acordos de cooperação no valor de 670 mil euros com Moçambique para o ano de 2018 na área do abastecimento de água e adaptação às alterações climáticas.

O governante visita na quarta-feira a Reserva Especial de Maputo, um parque de vida selvagem a sul da capital, e regressa a Lisboa na quinta-feira.