Espera-se que milhares de pessoas se concentrem no domingo, em quatro locais de Lisboa, e desfilem até ao Campo Pequeno para o comício de homenagem ao antigo secretário-geral comunista Álvaro Cunhal, no dia em que passam cem anos sobre o seu nascimento.

«Este momento (10 de novembro), com este comício, que será antecedido de quatro concentrações e desfiles em direção ao Campo Pequeno - sendo que estamos a fazer um grande esforço para uma grande mobilização que possa preencher aquele espaço simbólico, onde tantas vezes o PCP organizou comícios e diversos acontecimentos políticos -, reveste-se de grande significado», disse à Lusa Manuel Rodrigues, membro da comissão de comemorações do centenário e do recente congresso sobre Álvaro Cunhal.

Precisamente um século depois de o ex-líder comunista - que morreu a 13 de junho de 2005 - ter nascido em Coimbra, militantes ou outras pessoas vão encontrar-se em Entrecampos, na avenida de Berna, junto à Fundação Calouste Gulbenkian, no cruzamento da avenida de Roma com a João XXI e na praça Duque de Saldanha para rumarem à praça de touros lisboeta, onde se prevê lotação esgotada para o comício, com o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa.

«Fazemos um balanço muito positivo não só pelo grande envolvimento que era de esperar do PCP, a nível central e pelas suas organizações regionais, mas também por parte de muitas outras instituições que, noutros campos, da vida cultural e social do país - autarquias, museus, bibliotecas, associações, coletividades, grupos de teatro, individualidades ligadas ao cinema, às artes, universidades, escolas - promoveram e estão a realizar um vastíssimo conjunto de iniciativas que superam as nossas expectativas», afirmou Manuel Rodrigues.

O evento terá momentos musicais, a partir das 15:00, através da banda Brigada Vítor Jara e de Luísa Basto, a intérprete da canção «Avante, Camarada», além de várias intervenções, designadamente de Jerónimo de Sousa, previsivelmente perto das 17:00, no dia em que, curiosamente, a Juventude Comunista Portuguesa também celebra 34 anos.

91 anos de punho em riste

Álvaro Cunhal passou a maioria dos seus 91 anos de punho em riste, na ação política, mas também na criação artística, pelo povo e com crença inabalável no socialismo.

Em 15 de junho de 2005, dois dias após a notícia da sua morte, centenas de milhares de pessoas saíram às ruas de Lisboa para verem passar os restos mortais de Álvaro Barreirinhas Cunhal a caminho do crematório do Alto de São João, sem qualquer discurso, a seu pedido expresso, num texto em que terminava a desejar «a todos» (...) «que, vida fora, realizem os seus sonhos».

A vida de Cunhal confunde-se com a do Partido Comunista Português (PCP), para o qual continua a ser a referência, mesmo oito anos depois da sua morte e 21 após ter cedido o lugar de secretário-geral a Carlos Carvalhas.

Detido pela Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) em 1949, esteve preso durante 11 anos, protagonizando, a 03 de janeiro de 1960, a famosa fuga do Forte de Peniche, após o que se seguiu mais um largo período de clandestinidade.

Cinco dias após o 25 de Abril de 1974, Cunhal regressou a Lisboa, vindo de Paris, para tomar posse como ministro sem pasta do I Governo provisório, em 15 de Maio, no qual o socialista Mário Soares, de quem fora uma espécie de tutor na juventude, era ministro dos Negócios Estrangeiros. Foi ainda ministro sem pasta noutros três executivos.

Além da intervenção política, sob o pseudónimo de Manuel Tiago, deixou também obra feita na literatura, com vários romances, contos e peças de teatro, bem como diversos textos teóricos do marxismo-leninismo. Ao todo, desde 1961, Álvaro Cunhal foi secretário-geral do PCP durante 31 anos.