O Partido Socialista questionou esta segunda-feira se o Presidente da República terá mais informações sobre o negócio da TAP do que a Assembleia da República. Isto depois de Cavaco Silva ter dito, no domingo, que está "aliviado" com a privatização e que, ao que tudo indica, a transportadora aérea poderá permanecer autónoma, com uma base de operações em Portugal.

"O alívio do Presidente da República sobre o processo de privatização da TAP assentará em informações que não foram partilhadas com a Assembleia da República nem com os partidos?”


A pergunta é formulada pelo líder parlamentar socialista, Ferro Rodrigues, numa nota enviada à agência Lusa.

Perante as posições do chefe de Estado, o líder da bancada socialista refere-se também a outras declarações controversas proferidas por Cavaco Silva no ano passado, durante uma visita de Estado à Coreia do Sul, a propósito do caso Banco Espírito Santo (BES).

"Serão agora [essas informações de Cavaco Silva] mais fiáveis do que as que há um ano o levaram a dizer que o BES estava sólido?", questionou ainda o presidente do Grupo Parlamentar do PS.
 

Alguma coisa escondida na gaveta?


Também da parte do PS, o deputado Rui Paulo Figueiredo comentou hoje o processo de privatização, acusando o Governo de falta de transparência e secretismo. Exigiu explicações no parlamento e admitiu recorrer a todos os mecanismos para ter acesso à documentação do processo.

Na Assembleia da República, o deputado sugeriu que "o Governo quer chegar às eleições com tudo aquilo que está relacionado com a TAP escondido nalguma gaveta".

Questionado se o PS admite recorrer à Comissão Europeia, respondeu: "Nós equacionamos todos os mecanismos, porque este é um assunto absolutamente essencial e relevante. Nós percebemos que estamos a entregar a TAP praticamente de borla, estamos a entregar a TAP de borla".

Para já, os socialistas exigem esclarecimentos do ministro da Economia em comissão parlamentar: "Se, mais uma vez, a maioria [PSD/CDS-PP] bloquear a vinda do ministro Pires de Lima, nós equacionaremos a utilização de outros mecanismos parlamentares".

"Nós gostávamos, em primeiro lugar, que o Governo viesse ao parlamento, divulgasse as coisas e esclarecesse. E depois, sim, equacionaremos outras diligências", afirmou o deputado do PS, acrescentando que os socialistas ficam "um pouco mais tranquilos pelo facto de este processo ir passar pelo crivo das diligências europeias".

Segundo Rui Paulo Figueiredo, o PS quer ter "acesso aos documentos complementares aos cadernos de encargos, às avaliações financeiras" e "à proposta do consórcio" Gateway, vencedor da privatização, e quer saber "se o Estado vai ou não garantir a dívida, se a dívida vai ser renegociada - parece que sim". "Há um mundo de documentos que nós não conhecemos". Este é "um processo marcado pela falta de transparência e pelo secretismo". 
 

"É chocante ouvir um Presidente falar assim"


Entretanto, o PCP comentou igualmente as declarações de Cavaco Silva sobre a TAP. Jerónimo de Sousa não compreende a satisfação do chefe de Estado quando a empresa é vendida, diz, ao desbarato.

"É chocante ouvir um Presidente da República falar assim de uma empresa estratégiva, de uma empresa que liga à comunidade lusófona, de uma empresa que é simplesmente a maior exportadora nacional"


O secretário-geral do PCP recordou a expressão utilizada por Cavaco Silva, que disse estar "aliviado" como  negócio. "Bem podemos dizer, assim aliviados ficarão os portugueses quando terminar o seu mandato", ironizou o líder comunista.

A privatização da TAP, recorde-se, foi ganha por   David Neelman, que fica com 61% da empresa. O negócio pode chegar aos   488 milhões de euros, dependendo da performance da companhia aérea durante este ano.  

A TVI revelou ontem os detalhes da proposta do consórcio vencedor da privatização: o total do encaixe financeiro da TAP para o estado deverá chegar só daqui a cinco anos, em 2020.

Esta receita para os cofres públicos, de cerca de 130 milhões de euros, será conseguida com a dispersão em bolsa dos restantes 34% da empresa. A TVI teve acesso à proposta do consórcio vencedor do processo de privatização, que prevê ainda um apoio do Estado no que toca à renegociação da dívida.