O socialista Alfredo Barroso, que anunciou que vai pedir a desfiliação do PS, escreveu no jornal «i» um longo texto sobre as razões que estão na origem desta saída. Barroso considera que António Costa tem «acumulado nas últimas semanas declarações» que «põe em causa a credibilidade do PS como principal partido de oposição».

O militante número 15 do Partido Socialista começa desde logo por criticar o apoio de Costa a uma eventual candidatura de António Vitorino às Presidenciais, referindo-se a Vitorino como «um excelente advogado de negócios».

«Este [Vitorino] ainda não disse que não, mas, entretanto, já aceitou ser presidente da assembleia geral da 'chinesíssima' EDP (mais um 'tacho' na privada) e, portanto, membro do respetivo conselho geral, presidido pelo 'incontornável' Eduardo Catroga. Eu diria - para que a imagem do atual PS ficasse completa - que agora só faltaria ANtónio Costa apoiar a candidatura do 'incontornável' Jorge Coelho ao cargo de futuro primeiro-ministro'.»


Ao terceiro parágrafo, Barroso escreve então sobre o discurso que considera ter sido o «passo fatal» nesta «acumulação de declarações». Recorde-se que Costa afirmou, num discurso dirigido à comunidade chinesa, que o país estava melhor agora do que há quatro anos.

Barroso afirma que Costa deveria ter «respeito» por todos os desempregados e portugueses que se encontram «no limiar da pobreza».

«E digo que António nunca devia ter dado este passo por uma questão de coerência e dignidade, e por respeito pelas centenas de milhares de desempregados e pelos milhões de portugueses no limiar da pobreza, vítimas da brutal política de austeridade.»


Um «tiro de canhão no coração do PS » que foi «imediatamente aproveitado pela direita portuguesa» e que humilhou os socialistas, diz Barroso.

Barroso esclarece ainda que quer acabar a vida com «dignidade e coerência» e que isso não é possível continuando a militar no PS. Por isso, afirma que vai enviar ainda esta semana uma carta «muito simples, sem considerandos e/ou justificações» solicitando a desfiliação do partido.

O texto termina com Barroso a admitir que vai votar «muito provavelmente, no Bloco de Esquerda» para contrariar um alegado «oportunismo dos dissidentes do BE» que «se aproximaram do PS de Costa». «Porventura à espera de um 'lugarzinho' na mesa do orçamento, ou seja, na distribuição de cargos num futuro governo», critica Barroso.

Depois de esta quinta-feira ter admitido que ficou perplexo com as reações ao seu discurso, António Costa enviou esta sexta-feira uma mensagem aos militantes do partido, reafirmando essa perplexidade e afirmando que não confunde oposição com «bota abaixismo».

«Para destruir a confiança já basta o governo. Não confundo oposição com bota abaixismo. Todos sabem o que penso do estado do país e da urgência de mudar de políticas e de governo.»