Alexandre Soares dos Santos, que deixou a liderança executiva da Jerónimo Martins há três anos, considera que "o discurso dos políticos não convence ninguém" e que os jovens estão cada vez mais afastados da política por culpa dos políticos. Numa entrevista conduzida por José Alberto Carvalho, Soares dos Santos falou dos jovens, da política e da crise.

Um dos grandes problemas que existe em Portugal é não transmitirmos à juventude a noção de que é preciso trabalhar, de que é preciso lutar, de que é preciso vencer”, afirmou.

O antigo homem forte da Jerónimo Martins criticou os partidos políticos, "que não cativam os jovens a participar" e que estão habituados a "uma certa clientela".

Para Soares dos Santos, é importante ir chamá-los às universidades, para que participem na vida política e um dos objetivos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que esta sexta-feira promoveu o encontro anual dedicado ao tema “Que Democracia?”, é precisamente contornar este problema e transmitir conhecimento através dos acordos com universidades.

As pessoas, não só os jovens, mas o povo em geral, está mais culto do que era, compreende mais do que era, tem a televisão, tem a internet, tem toda uma série de coisas”, sustentou, para justificar que "o discurso dos políticos não convence ninguém" já que são "discursos totalmente fora da realidade".

Questionado sobre se os partidos têm a capacidade de se regenerar de alguma forma, Soares dos Santos afirmou que, cada vez mais, tanto à esquerda como à direita, “estão a surgir radicalismos” e que não pode “ser otimista”.

A crise foi outro dos temas abordados na entrevista. Alexandre Soares dos Santos avisou que a mesma não se resolve passando o tempo a “discutir o défice e a dívida”.

O défice e a dívida são consequências de outras causas e as causas só se resolvem sentando à mesa e fazendo um acordo na sociedade entre empresários, sindicatos, Governo e partidos políticos para um plano a longo prazo”, afirmou. “Isto foi feito na Holanda na década de 80”.

Soares da Costa criticou ainda as constantes mudanças aos planos de educação.

Nenhum programa foi testado convenientemente”, apontou.

Alexandre Soares da Costa teceu ainda duras críticas aos empregos precários e aos baixos salários.

No Algarve este ano, o Pingo Doce chegou a fazer propaganda na rádio para ter pessoas para trabalhar”, exemplificou. “Fomos ao Instituto do Desemprego, mandaram-nos 90 pessoas, dessas 90 apareceram seis e dos seis nenhum quis trabalhar. E foram todos novamente para o desemprego. Se tinham trabalho e não queriam trabalhar não tinham que ir para o desemprego.”