O presidente demissionário do Governo Regional da Madeira afirmou esta terça-feira que ainda não decidiu se assume o lugar de deputado na Assembleia da República nem se é candidato à Presidência da República.

Alberto João Jardim não excluiu nenhuma destas hipóteses em declarações aos jornalistas, à saída de uma audiência com o Presidente da República, Cavaco Silva, no Palácio de Belém, em Lisboa, que ocorreu a pedido do presidente demissionário do governo regional madeirense.

Na ponderação da decisão de assumir o lugar de deputado à Assembleia da República pesam sobretudo fatores financeiros, dada a dificuldade de «ter duas casas», disse Jardim, enquanto na decisão de uma candidatura a Belém pesa o apoio partidário e a dificuldade de ter igual tratamento na comunicação social sem esse apoio.

«[Sobre ser deputado] Ainda não sei. Tenho que fazer contas à vida, porque na política não se enriquece ou pelo menos não se devia enriquecer, e ter duas casas não é fácil. Tenho que ver quais são as condições, embora o dever de Estado não deve olhar a meios, mas também não devemos entrar em situações que não conhecemos». 


«A decisão não está tomada porque eu não conheço qual é a situação de um deputado da Assembleia da República», acrescentou, considerando que existe atualmente um preconceito quanto ao que os políticos auferem que poderá levar os titulares de cargos políticos a «pedir dinheiro emprestado para viver».

Já quanto a uma candidatura a Belém, Jardim considerou que num «sistema partidocrático não é possível sem o apoio de um partido».

«Não tendo apoio de um partido, uma pessoa que reúna as 7500 assinaturas pode candidatar-se a Belém. Só que é preciso que se tenha as mesmas oportunidades, e não têm sido dadas, apesar das recomendações da Comissão Nacional de Eleições», argumentou, defendendo a necessidade de «igual tratamento pela comunicação social dos candidatos que são apoiados pelos partidos do regime».


Contudo, ressalvou, uma candidatura presidencial pode «ser até uma oportunidade de explicar ao povo português que o sistema político exige uma forte mudança e que estes partidos tradicionalistas deram o que tinham a dar».

«Eu julgo que a campanha para a Presidência da República pode ser para um debate interessante. Mas se pegam nos candidatos que não são candidatos dos partidos e os põem à margem sem poder dizer o que pensam aos portugueses, aí não vale a pena. Só em certas condições é que vale a pena ser candidato à Presidência da República sem o apoio dos partidos».


Questionado sobre se participará da campanha eleitoral na Madeira, Jardim respondeu que só no caso lhe ser pedido por Miguel Albuquerque, que ganhou a liderança do PSD na região. «Se ele me pedir, sim senhor, porque ele é neste momento o meu líder», declarou.

O presidente regional demissionário disse ter pedido a audiência com Cavaco Silva para lhe agradecer «todas as atenções» que dele recebeu e «o apoio que deu ao desenvolvimento integral da Madeira», enquanto chefe de Estado e também quando foi primeiro-ministro.

O líder madeirense demissionário defendeu também que «seria necessário» surgir em Portugal um partido antiausteridade, como o Syriza.

«Eu penso que em Portugal seria necessário, na zona do centro-direita ou do centro-esquerda, aparecer um Syriza, mas um Syriza não radical».


Afirmando-se «antiausteridade», Jardim disse ter-se sentido confortado por ver o Syriza ganhar as eleições gregas, apesar de se opor ao «radicalismo deles».

«Para quem discorda como eu das políticas de austeridade, mas não é radical, nem de esquerda nem de direita, no sistema partidocrático, que está carunchoso, seria interessante aparecer, ao centro, uma coisa credível».


O presidente madeirense vê com dificuldade uma vitória de um partido semelhante ao Syriza em Portugal:

«Penso que em Portugal não acontece, porque o homólogo do Syriza é o Bloco de Esquerda. Eu não vejo os portugueses a votar no BE, pode ser que eu esteja enganado, que eu não gosto de fazer futurismo».


Questionado se poderia liderar um movimento para a criação desse partido antiausteridade, respondeu que não é um D. Quixote, mas alguém que vive num «exílio dourado na ilha» e que «essas coisas têm que nascer aqui no continente».

«Eu ajudo tudo o que for quebrar com o sistema político, mas na lógica e em coerência com o projeto de revisão constitucional que a Madeira apresentou e os portugueses não conhecem», afirmou, considerando que, no PSD, «o debate interno pode não chegar para provocar mudanças sólidas em Portugal».

Neste projeto de revisão constitucional, que foi inviabilizado pelo PSD nacional no ano passado, os deputados sociais-democratas eleitos pela Madeira propunham, entre outras mudanças, a extinção do Tribunal Constitucional e um mandato único de dez anos para o Presidente da República.

Parlamento madeirense a meio gás

Após a proclamação da dissolução da Assembleia Legislativa da Madeira (ALM) pelo Presidente da República, o funcionamento da ALM será assegurado pela Comissão Permanente e não se realizarão plenários, disse o vice-presidente do parlamento regional.

«Não haverá plenários e a comissão [permanente] reunirá semanalmente, desde que haja matérias para dar parecer, e será presidida por um dos vice-presidentes da assembleia», explicou Paulo Fontes.