O presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, comparou, esta quarta-feira, o programa de ajustamento português a uma intervenção cirúrgica dolorosa fisicamente e defendeu que Portugal precisa agora urgentemente de um programa de fisioterapia para recuperar.

António Costa defendeu esta posição num almoço promovido pelo American Club of Lisbon, numa sessão em que a apresentadora do evento começou por prevenir os presentes que os responsáveis da organização luso-americana ficaram «really excited [muito entusiasmados]» com a intenção de o presidente da Câmara de Lisboa avançar para a liderança do PS.

Na intervenção de fundo, o dirigente socialista retomou a sua tese de que o país precisa de uma agenda para a próxima década, tendo como alavancas fundamentais as apostas na ciência, na educação e na cultura - única forma, na sua opinião, de atacar as causas estruturais dos problemas nacionais de competitividade.

«O processo de ajustamento causou danos sociais e económicos - e não faz sentido estarmos a discutir agora se era ou não necessário esse programa de ajustamento, pois está feito. Mas uma operação bem ou mal feita nunca deixa de ser um trauma, porque rasga tecidos, destrói os músculos e implica depois um programa de fisioterapia que permita a recuperação do músculo e a autonomia dos movimentos», disse.

Ou seja, de acordo com o presidente da Câmara de Lisboa, Portugal precisa hoje «de um programa de fisioterapia que ajude a reconstituir o músculo e a autonomia dos seus movimentos», sustentou.

Neste contexto, António Costa falou na importância de «um novo equilíbrio virtuoso entre o respeito pelos compromissos, a necessidade de o país recuperar uma trajetória de crescimento e a redução do seu nível de endividamento». «Sem uma mudança uma agenda para a década, sem uma agenda em torno da boa aplicação dos fundos comunitários e sem uma agenda de negociação na Europa, dificilmente Portugal conseguirá romper os impasses que o rodeiam», advertiu, numa intervenção em que defendeu uma mudança de alinhamento no executivo de Lisboa nas principais instituições europeias.

«Se Portugal não tiver uma agenda, se não identificar os interesses nacionais, se não estiver determinado em defender esses interesses e se não for capaz de construir uma união de alianças que permita fazer essa negociação, não conseguiremos obter os resultados. Não podemos estar do lado daqueles que bloqueiam a mudança da política, sob pena de prejudicarmos o interesse nacional», concluiu, numa crítica indireta ao Governo PDSD/CDS.

António Costa defendeu ainda uma revisão da arquitetura da União Económica Monetária (UEM), advogando que o euro aprofundou as assimetrias económicas entre os diferentes Estados-membros, e deu como exemplo a criação do dólar norte-americano.

Neste ponto, o autarca de Lisboa citou a obra «The Federalist» (sobre o debate para a criação da Constituição norte-americana), com a definição das duas condições base de unificação monetária: A mobilidade do mercado de trabalho e a solidariedade orçamental. «A solidariedade orçamental é a componente que falta e é absolutamente essencial para corrigir os efeitos assimétricos do euro. Se não o conseguirmos fazer, dificilmente todos caberemos nesta moeda», alertou.