António Costa e Mário Soares escolheram o último dia do ano para visitar  o ex-primeiro-ministro José Sócrates, em prisão preventiva há mais de um mês.

Enquanto que o antigo Presidente da República entrou esta quarta-feira um pouco antes das 10:00 no Estabelecimento Prisional de Évora para visitar Sócrates pela segunda vez, o secretário-geral do PS chegou sozinho, cerca das 10:30, para visitar «um amigo» e «não os jornalistas».

«Não há bem mais precioso que a liberdade. Quem está privado da liberdade está com certeza a passar um mau bocado», limitou-se a dizer o líder socialista, perante a insistência dos jornalistas.



À saída do Estabelecimento Prisional de Évora, o antigo Presidente da República insistiu que «não há razão nenhuma» para a prisão preventiva do ex-primeiro-ministro José Sócrates, que está «muito bem», reconheceu, mas numa «situação muito difícil».

«Achei-o muito bem do ponto de vista intelectual e está com bastante capacidade. Claro que a situação é difícil, é muito difícil, já se sabe», afirmou aos jornalistas.

Mas o ex-primeiro-ministro, continuou Soares, «vai sair» da prisão «porque não há razão nenhuma para que ele continue tanto tempo preso, porque não há nada que se possa mostrar que ele podia ser preso».

No final desta que foi a sua segunda visita ao antigo líder socialista, que durou cerca de hora e meia, Mário Soares, um dos fundadores do PS, falou de forma mais tranquila com os jornalistas e sem críticas tão diretas à justiça e à comunicação social.

Contudo, questionado sobre se acredita que Sócrates está a ser vítima da política, o antigo Presidente da República remeteu para declarações suas anteriores: «Tenho dito isso várias vezes, não estou a dizer nada de novo, eu tenho escrito isso em vários sítios».

Reiterando que acredita na inocência de José Sócrates, em prisão preventiva há mais de um mês na prisão de Évora, Mário Soares frisou que, para se perceber o que pensa, basta que se leia a carta que escreveu ao ex-primeiro-ministro e que foi publicada na imprensa, esta semana.

Neste último dia do ano, Soares justificou ter voltado a visitar Sócrates devido ao «sentimento de amizade» que os une, mas realçou não ter deixado qualquer mensagem especial ao antigo líder do PS.

«Não preciso de deixar nenhuma mensagem porque ele está muito enérgico, muito senhor do que deve fazer» e «da sua completa inocência», disse.

«Num dia em que vai acabar o ano e em que vai começar um novo ano, eu, que já tenho 90 anos, entendi que devia vir visitar este meu amigo», referiu ainda Mário Soares.

Sobre o facto de ter chegado ao Estabelecimento Prisional de Évora pouco mais de meia hora antes do secretário-geral do partido, António Costa, Mário Soares refutou que as visitas tenham sido combinadas. «Nem pensa»”, afirmou.

«O António Costa chegou depois e vai sair depois, como é normal», limitou-se a esclarecer, a propósito desta matéria.



Por sua vez, o secretário-geral do PS considerou que a justiça deve «funcionar em todos os seus valores».

O atual líder socialista falava aos jornalistas depois de visitar, pela primeira vez e durante pouco mais de uma hora, o ex-chefe de Governo, no Estabelecimento Prisional de Évora, onde se encontrou com o antigo Presidente da República Mário Soares.

«Deixemos a justiça funcionar em todos os seus valores», o que significa «assegurar a presunção de inocência», disse.

Para António Costa, é também preciso «assegurar que a acusação tenha os meios necessários para fazer a investigação, que a defesa disponha dos meios e de igualdade de meios no exercício da defesa, que o segredo de justiça seja preservado e que não haja condenações, nem julgamentos na praça pública, que as pessoas se possam defender».

«É isso que deve ser normal num Estado democrático», defendeu, assegurando que todos, e que ele fará a sua parte, se devem bater por «um sistema de justiça que funcione com normalidade».

José Sócrates está detido na prisão de Évora, depois do primeiro interrogatório judicial e de ter sido colocado em prisão preventiva.

O ex-primeiro-ministro é o primeiro ex-chefe de governo da história da democracia portuguesa a ficar em prisão preventiva, indiciado por fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais e corrupção.

Os outros dois arguidos em prisão preventiva no âmbito do «processo Marquês», encontram-se presos preventivamente no Estabelecimento Prisional Anexo às Instalações da Policia Judiciária, na rua Gomes Freire, em Lisboa.