O presidente do PSD, Rui Rio, disse esta quinta-feira, em Luanda, que as relações entre Angola e Portugal têm agora uma “estrada aberta” pela frente, destacando o “simbolismo” de ter sido recebido pelo chefe de Estado angolano, João Lourenço.

O líder do maior partido da oposição portuguesa falava aos jornalistas, no Palácio Presidencial, em Luanda, depois de uma audiência, pouco habitual enquanto dirigente partidário, de cerca de 30 minutos, com o Presidente angolano.

À saída, Rui Rio admitiu que as dificuldades provocadas pelo processo judicial em Lisboa, contra o ex-vice-presidente da República, Manuel Vicente, estão ultrapassadas entre os dois países e o relacionamento entra numa nova fase de cooperação.

Penso que isso é aquilo que todos nós desejamos. Estão criadas, neste momento, as condições, está uma estrada aberta para essa cooperação que tem já muitos anos, como todos sabemos. Pronto, tem os seus acidentes de percurso, teve um acidente de percurso como todos sabemos e não vale a pena naturalmente escondê-lo, mas uma vez ultrapassado temos é que trabalhar e estreitar ainda mais os laços”, disse Rui Rio, questionado pelos jornalistas.

Em apenas quatro horas, durante a manhã de hoje, o líder do maior partido da oposição em Portugal foi recebido em Luanda pelas duas figuras mais importantes do quadro político angolano, mas preferiu não sobrevalorizar o facto de acontecerem antes da anunciada visita a Luanda do primeiro-ministro português, António Costa.

Eu vim quando tive oportunidade de vir. A minha deslocação a Angola está pensada há bastante tempo, desde que eu sou presidente do partido, houve a oportunidade de o fazer agora e eu fi-lo agora", disse Rui Rio, questionado pelos jornalistas, ainda na sede nacional do MPLA, sobre uma antecipação ao primeiro-ministro português.

Ao sair da reunião com José Eduardo dos Santos, chefe de Estado angolano entre 1979 e 2017, Rui Rio classificou os encontros da manhã de hoje - os primeiros do género, ao mais alto nível, em vários anos - como sendo "de grande relevo" para Portugal.

"É bom para o PSD, mas eu penso que é bom, acima de tudo, e é isso que me preocupa sempre, é bom para Portugal e penso que também bom para Angola", apontou.

ui Rio justificou a reunião com José Eduardo dos Santos como o "estreitar de relações historicamente muito boas", entre o MPLA e o PSD: "É com todo o gosto que nós continuamos com essa relação, que é boa para os dois partidos e é boa, como digo, quer para Angola quer para Portugal".

Uma transição no poder, ao fim de quase 40 anos, que o político português vê com naturalidade, face aos "novos desafios" de Angola: "Uma coisa eram os desafios nos 70, nos anos 80, nos anos 90. E agora o desafio que se põe a Angola é completamente diferente. Há aqui o abrir de uma nova etapa, que é normal, é assim na vida".

Rui Rio insistiu que Angola e Portugal podem ter uma colaboração complementar, em várias áreas, desde a economia à educação, passando ainda pela saúde.

O mesmo acontece com a implementação do modelo autárquico em Angola, que arranca, com as primeiras eleições locais, em 2020, em que, afirmou, "o MPLA terá seguramente um papel decisivo", podendo contar com a experiência de mais de 40 anos de "Portugal e do PSD".

"Se essa experiência poder servir para alguma coisa, estamos naturalmente também disponíveis", afirmou Rui Rio.

Questionado pelos jornalistas, o líder do PSD admitiu a necessidade de a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) encontrar um novo rumo, para fortificar a própria organização e a relação entre os países.

Usando como exemplo a CPLP, disse igualmente que Portugal "não pode estar só virado para a Europa", devendo antes dar atenção também aos países do Atlântico, sendo Angola, nesse contexto, um "parceiro natural".

A viagem do líder do PSD acontece depois de a Procuradoria-Geral da República ter transferido para Angola o processo judicial que envolve Manuel Vicente.

O primeiro-ministro, António Costa, também deverá deslocar-se a Angola em breve, mas não foram ainda adiantadas datas.

Em 04 de junho, o chefe de diplomacia angolano, Manuel Domingos Augusto, disse, em Bruxelas, que estava a trabalhar diretamente com o seu homólogo português, Augusto Santos Silva, para que o programa da deslocação de António Costa a Angola "esteja à altura dessa visita".

Na altura, Manuel Domingos Augusto comentou que a visita do primeiro-ministro português a Luanda "já poderia ter tido lugar antes", se não fosse o processo do ex-vice-Presidente angolano, mas sublinhou que, resolvida que está essa questão, com a transferência do processo para a Justiça angolana, "agora o mais importante" é trabalhar em conjunto para repor a normalidade nas relações luso-angolanas.