A antiga ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite considerou este sábado, numa conferência em Massamá, Sintra, que uma eventual saída da Grécia do euro seria um sintoma de "uma enorme fragilidade" da moeda única, com consequências para o país.

"Não sou capaz de afirmar que não há nenhuma consequência para o país, aconteça o que acontecer à Grécia", admitiu a antiga ministra de Estado e das Finanças, no Governo de Durão Barroso, apoiando-se nas palavras do presidente do Banco Central Europeu de que se está a “entrar em águas desconhecidas".


Para a economista social-democrata, que falava na conferência "O que nos espera?", promovida pelo movimento independente Sintrenses com Marco Almeida, afirmar que Portugal não será afetado com uma eventual saída grega da moeda única, por ter "os cofres cheios", parece que “não tem a mínima adesão à realidade".

"Uma coisa parece certa, é [que] se por qualquer motivo a Grécia saísse do euro isso seria um sintoma de uma enorme fragilidade da moeda e essa enorme fragilidade da moeda não pode deixar de ter consequências para todos os países", frisou Ferreira Leite.


Na intervenção inicial, no auditório do Centro Lúdico de Massamá, a antiga líder do PSD assumiu ter um "desencontro" com as políticas que têm sido seguidas, em resultado de um afastamento do partido do seu percurso ideológico.

Apesar de reconhecer que o país estava "à beira da bancarrota", quando teve de pedir ajuda externa, Ferreira Leite salientou que muito poucos no PSD a acompanharam nos avisos de que se estava a caminhar "para o desastre" e de que a União Europeia também teve responsabilidade por não saber responder à crise.

A receita da austeridade aplicada nos últimos anos também "foi errada", porque não levou em conta a realidade económica do país, e "foi arrasadora do ponto de vista social", criticou.

A economista questiona a validade das estatísticas da melhoria do desemprego, porque os restantes indicadores não confirmam existir um aumento de emprego, e receia que isso se deva não ao investimento na criação de postos de trabalho mas ao financiamento de formação e estágios com fundos comunitários.

"O problema que neste momento afeta a Segurança Social chama-se pura e simplesmente desemprego", apontou Ferreira Leite, notando que a sustentabilidade do sistema depende mais da situação económica do país do que do envelhecimento da população.


Nesse sentido, a antiga dirigente social-democrata defendeu que a questão da Segurança Social devia ser um dos pontos essenciais no próximo debate eleitoral e não ser deixado para eventuais "consensos" após as eleições.

Segundo Manuela Ferreira Leite, as políticas dos últimos anos levaram "à destruição da administração pública" e o Estado foi dominado "pelos assessores e pelos gabinetes de advogados", com prejuízos na defesa do interesse público, por exemplo, nas negociações das parcerias público-privadas.

A conferência teve como moderador António Capucho, expulso do PSD por ter concorrido como independente para a Assembleia Municipal de Sintra, juntamente com Marco Almeida, ex-vereador social-democrata, e contou com a participação do antigo ministro e presidente da Câmara de Lisboa Carmona Rodrigues.