O Jornal de Angola volta a criticar, esta quarta-feria, em editorial, o estado das relações com Portugal, pelo segundo dia consecutivo, exigindo um «esclarecimento urgente» de Lisboa e centrando-se nas críticas assíduas do deputado socialista João Soares.

Intitulado «Contornos de uma conspiração», o texto visa diretamente o socialista - referindo-se sempre ao «filho de Mário Soares» -, recordando a sua condição de eleito pela Assembleia da República para o Conselho de Fiscalização do Sistema Serviços de Informações da República Portuguesa (CFSIRP), as suas críticas ao regime angolano e o caso dos vistos 'gold'.

«A mesma personagem percorre os canais de televisão portugueses disparando insultos e calúnias contra titulares dos órgãos de soberania de Angola. Afirma reiteradamente que os investimentos angolanos em Portugal provêm de fundos roubados. Fala em 'cleptocratas de Luanda' com a maior desfaçatez. E nunca se esquece de lembrar a sua condição de membro do CFSIRP para chancelar as suas mentiras e calúnias», aponta o editorial do jornal estatal angolano.

Acrescenta que um «deputado da Nação [portuguesa] que se entretém diariamente a chamar ladrões aos titulares dos órgãos de soberania em Angola» sem que «os seus pares» se «demarquem de tão graves crimes», é «evidente que está mandatado para assim proceder».

«E não venham dizer-nos que estamos perante o exercício da liberdade de expressão. Não façam de nós indigentes mentais. O filho de Mário Soares, deputado do Partido Socialista, está a exercer aquilo que ele considera ser o seu direito de conspiração contra Angola. Todos estes dislates ultrapassam o mero exercício do direito a emitir opiniões. A liberdade de expressão tem limites. E no caso do fiscalizador do SIS, esses limites são ainda mais estreitos», enfatiza o editorial do Jornal de Angola.

Defende que «sempre que o filho de Mário Soares fala em dinheiro ilegal exportado de Angola, de ladrões, de corruptos e cleptocratas», a opinião pública portuguesa «acredita porque pensa que ele tem informações secretas fornecidas pelos serviços secretos que é suposto fiscalizar».

«Nós sabemos que não. Tudo o que ele diz são mentiras e calúnias. Todas as suas afirmações são peças da conspiração que o ministro do Interior [de Angola] agora [segunda-feira] denunciou. Disso não temos dúvidas», lê-se.

No segundo editorial consecutivo em que alude a estas «ameaças» ao «regime democrático» angolano e à interferência de setores portugueses, o jornal afirma que recentes «cumplicidades» tornadas públicas, nomeadamente com a «operação Labirinto» e o envolvimento de responsáveis do Serviço de Informações de Segurança (SIS), «são inquietantes e exigem um esclarecimento urgente por parte das autoridades de Lisboa».

«A 'operação Labirinto' em Portugal levou à detenção de altas figuras do Estado. Mas também trouxe à luz do dia uma situação insólita em qualquer parte do mundo, mesmo no país do filho de Mário Soares, da filha do senhor Gomes, deputada europeia do Partido Socialista, ou do filho do senhor Louçã, líder escondido do Bloco de Esquerda», lê-se no mesmo texto.

Face à alegada intervenção do SIS no caso dos vistos 'gold', recordada pelo jornal angolano, o editorial insurge-se: «Nós temos o direito de suspeitar que os mesmos serviços varrem o quintal dos amigos e atiram com o lixo para a porta de Angola, servindo-se do livre acesso do filho de Mário Soares a todos os canais de televisão portuguesa».

O editorial termina com uma garantia: "Uma coisa é certa: qualquer ataque contra o regime democrático está votado ao fracasso".