Depois de ter sido convidado, "por duas vezes", a ser candidato à liderança do PSD, Rui Rio decidiu honrar "a palavra dada". Na apresentação da sua candidatura em Aveiro, Rui Rio explicou a recusa em disputar a presidência do partido em 2008 e em 2010 por se encontrar, na altura, a cumprir o mandato à frente da Câmara do Porto e com o facto de, então, o PSD viver "momentos de relativa normalidade".

Mas agora o cenário mudou e "temos de o dizer com frontalidade, o PSD está numa situação particularmente difícil", e por isso, o ex-presidente da Câmara do Porto decidiu candidatar-se.

Abandonar quem em mim confiou não faz nem fará parte do meu código de conduta. Se há coisa que a política em Portugal precisa é de um banho de ética", afirmou Rui Rio no início da apresentação da sua candidatura.

Garantindo não ter "a palavra eticamente presa a nenhum compromisso", o antigo autarca diz estar à vontade para "estar com os dois pés no PSD e no país".

Decidi por isso ser candidato a presidente do PSD nas próximas eleições internas de janeiro. Tudo na vida tem o seu tempo. Hoje, o meu tempo, é o tempo de me dedicar a servir o PSD num dos momentos mais difíceis da sua história. Seria bem mais cómodo, do ponto de vista pessoal, familiar, ou profissional, não responder afirmativamente aos apelos que me fazem, mas como sempre pensei, sempre disse e sempre fiz, eu jamais defraudaria a esperança que tantos em mim depositam. Por isso, aqui estou. Pronto para cumprir o meu papel de português e pronto para a batalha que todos temos de travar por um PSD forte, pelo PSD que Portugal tanto precisa".

Rui Rio disse ainda que "este é o momento certo" para agradecer a Pedro Passos Coelho, atual líder do partido, "pelos serviços que prestou ao país e ao partido".

A gratidão é dos valores éticos mais relevantes da nossa convivência social. Sem ela, o mundo é uma selva que não conhece a solidariedade. Nós não nos podemos de esquecer quem nos ajudou e quem por nós trabalhou. Comigo a presidente, o PSD não se esquecerá de Pedro Passos Coelho nem de todos os demais que de forma correta, leal e altruísta, honrou o partido ao longo dos tempos".

PSD não pode ser “muleta de poder” 

Rui Rio defendeu ainda que o PSD "não é nem nunca será" um partido de direita, mas de centro, nem "uma muleta de poder". O antigo presidente da Câmara do Porto defendeu que "o PPD que Sá Caneiro e Francisco Balsemão" fundaram, entre outros, tem "raízes profundas” na classe média e é “transversal a toda a sociedade".

É um partido do centro, que vai do centro-direita ao centro-esquerda. Não é um partido de direita, tal como alguns o têm tentado caracterizar. Não é, nem nunca será", defendeu.

Por outro lado, no final do seu discurso de sete páginas, lido em menos de 20 minutos, Rui Rio defendeu que o PSD tem de ser o agente da mudança política em Portugal: "O PSD é um partido de poder, não é muleta de poder".

Para o PSD, este será o primeiro dia da sua caminhada para a reconciliação com os portugueses. Mas, para Portugal, este terá de ser, acima de tudo, o princípio do fim desta coligação parlamentar que hoje, periclitantemente, nos governa", afirmou.

No final de uma declaração, que tinha sido anunciado como sem direito a perguntas, um jornalista tentou confrontar Rui Rio com o anúncio, feito na terça-feira, pelo antigo primeiro-ministro Pedro Santana Lopes, de que também está na disputa da liderança do PSD.

Vamos ter três meses para responder às perguntas dos jornalistas", justificou Rio, sem responder à questão.

Numa sala cheia, sem cadeiras, com todos os apoiantes de pé, Rui Rio deixou críticas à atual solução governativa.

O país não se pode deixar hipnotizar por uma conjuntura económica que, por contrastar pela positiva com a profunda crise que recentemente atravessámos, tende a nos iludir quanto ao futuro. Mais do que gerir o presente ou lamentar o passado, Portugal tem de se preparar para o futuro", apelou.

Para Rui Rio, só um PSD "com novas formas de funcionamento, bem mais perto das pessoas e mais aberto à sociedade" pode voltar "a ser uma força política liderante" e capaz de fazer o país ultrapassar o que chamou de "contradições estruturais".

Pelas contradições que em si encerra, esta coligação parlamentar que hoje nos governa, jamais será capaz de o fazer", afirmou.

Sem referências diretas à regionalização - sobre a qual tem defendido "um debate sério no país" -, Rio considerou que o país tem de "ganhar uma margem sustentável para distribuir a riqueza de forma mais justa e ser social e territorialmente mais coeso".

Não podemos estar apenas preparados para navegar com mar calmo e ventos favoráveis", alertou.

No final da sua declaração, Rio assegurou que conta "com todos" no partido.