Diogo Freitas do Amaral afirmou esta quarta-feira no programa «Política Mesmo» da TVI24 que, quatro anos após o pedido de resgate, o «país não está nada bem» e o Governo, ao invés de ter cortado naquilo a que chama de «gorduras do Estado», mexeu nos salários e nas pensões, cometendo uma «grave ilegalidade».

«Há as chamadas 'gorduras do Estado' onde o Governo não mexeu, onde não quis mexer, porque estão lá os boys e as girls dos grandes partidos e portanto isso era fazer sangue na base partidária do Governo e na do próprio partido da oposição. [...] Ao cortar nas pensões o Governo cometeu uma ilegalidade grave. [...] Isto devia ser tudo declarado inconstitucional.»


Freitas do Amaral sublinhou que o Governo foi «além do memorando da Troika» quando bastava o seu cumprimento e que, mesmo assim, nenhuma das metas estabelecidas no programa foi atingida. O resultado destas políticas pôs em causa, na sua opinião, o Estado social e o Estado de direito.

«Quase nenhuma das metas que constavam no memorando foi cumprida. A primeira era reduzir a divida pública e esta não só não reduziu como aumentou. O segundo grande objetivo era a redução do défice orçamental. O ano passado estava na casa dos 5% do PIB e no final do ano em 4,5%, mas o que estava no memorando era um valor abaixo dos 3%.»


O fundador do CDS e membro do Governo socialista de José Sócrates deixou duras críticas ao comportamento do executivo de Passos Coelho perante a Troika, considerando que o Governo «devia ter tido mais capacidade negocial» e devia ter defendido «os interesses do país».

«O Governo nunca protestou. portou-se como o bom aluno, com o rabo entre as pernas, e não defendeu os interesses nacionais.»
 

Por isso, e destacando o facto de as eleições legislativas ocorrerem em outubro, Freitas do Amaral deixou um apelo, pedindo que seja elaborado, por economistas independentes, um relatório sobre o programa da Troika em Portugal, de modo a que seja clarificado «o que estava assinado, o que foi conseguido e o que não foi conseguido, de todo». Para Freitas do Amaral, este estudo teria como objetivo «esclarecer os cidadãos que vão votar» nas eleições legislativas. 
 

«Os três anos da Troika acabaram sem um relatório porque a maneira de Portugal sair do programa com sucesso era não produzir nenhum relatório. Nenhuma entidade pública ou privada fez um relatório sobre esse programa e o que eu proponho aqui é que uma comissão de economistas independentes fizesse um balanço muito objetivo, sem truques, sem jogos partidários.»


Ainda sobre o ato eleitoral, o Professor de Direito espera que Cavaco Silva não insista que só dá posse a um Governo maioritário, uma vez que isso pode criar um «grande impasse» e expressou o desejo de ver o líder socialista, António Costa, a fazer uma oposição mais rigorosa ao atual executivo.

«Gostaria que o líder do PS já estivesse a fazer uma oposição mais rigorosa. Acho que ele não tem de esperar pelo grupo de economistas para não fazer promessas vãs que depois não pode cumprir. Há muitos aspetos sobre os quais podia falar. A política externa por exemplo, o primeiro-ministro desvalorizou a politica externa tal como a cultura.»



Nesta entrevista conduzida por Paulo Magalhães, Freitas do Amaral falou ainda da Europa e da situação da Grécia, que, na opinião do Professor, cometeu «alguns erros táticos».

Para Freitas do Amaral, a Europa afunda-se de ano para ano e os líderes europeus não têm coragem de «bater com o murro na mesa» contra a Alemanha que «asfixia» os restantes países através da sua posição dominante em termos financeiros.

 «A Europa afunda-se de ano ano por causa da falta de competitividade. Os líderes europeus ainda não tiveram coragem de bater com o murro na mesa. A Alemanha está a asfixiar a Europa através do poderio financeiro. O estado social europeu é uma das maiores conquistas da humanidade e o que vemos é uma destruição deste estado social.»