As imagens da violência exercida pelas forças policiais na Catalunha, em dia de referendo à independência, correram as redes sociais e chocaram o mundo. Vários líderes europeus condenaram o sucedido e apelaram a uma solução pacífica. Em Portugal, a agitação em torno das eleições autárquicas não impediu que a porta-voz do Bloco de Esquerda se pronunciasse sobre o assunto. Mas foi a única. Do Governo ou do Presidente da República não se ouviu uma palavra.

Achamos que qualquer Governo democrático deve condenar a violência policial a que se assistiu na Catalunha, a começar pelo Governo português, até porque a Constituição portuguesa respeita a autodeterminação de todos os povos.”

Foi desta forma que, no domingo, Catarina Martins desafiou o Governo a condenar a violência policial que o governo central de Espanha usou para travar a realização do referendo à independência da Catalunha, convocado pela Generalitat. Madrid declarou o referendo ilegal e lançou uma violenta operação, que provocou quase 900 feridos.

No domingo, no Palácio Galveias em Lisboa, o quartel-general do BE para a noite eleitoral, Catarina Martins frisou a “enorme gravidade” do que estava a acontecer na região.

O que se está a passar hoje na Catalunha é de uma enorme gravidade", alertou.

O repto foi lançado, mas, até agora, não teve resposta. O Executivo português falou sobre a “questão catalã” – o termo usado foi mesmo este – sim, mas no sábado, na véspera da realização do referendo.

O comunicado divulgado nesse dia pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros defendeu que a “questão catalã” deve ser “considerada no quadro do respeito pela constituição e pelas leis espanholas.” Uma posição que, de resto, foi subscrita por Marcelo Rebelo de Sousa numa nota divulgada no site da Presidência.

Mas sobre as imagens de violência que surgiram no domingo, o Governo português ainda não se pronunciou, desconhecendo-se, por isso, a sua posição sobre esta matéria.

Postura diferente tiveram vários líderes europeus, que se manifestaram preocupados com a escalada de tensões. Muitos condenaram cabalmente o abuso da força pela Guardia Civil.

 

Líderes europeus preocupados apelaram ao diálogo

O primeiro-ministro da Bélgica foi um dos primeiros a reagir aos acontecimentos. Charles Michel disse numa mensagem publicada no Twitter que “a violência nunca pode ser a resposta”.

Ainda na Bélgica, o antigo primeiro-ministro e atual eurodeputado Guy Verhofstadt também expressou a sua preocupação. Ressalvou que "não queria interferir nos assuntos de Espanha", mas que "condenava absolutamente" o que se tinha passado. 

Também o chefe do governo da Eslovénia, Miro Cerar, manifestou-se preocupado com a situação e pediu soluções pacíficas. 

Esta segunda-feira, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, telefonou ao líder do governo espanhol, Mariano Rajoy, pedindo-lhe para procurar "meios para evitar uma nova escalada de violência e uso da força".

A Comissão Juncker, por sua vez, reiterou, na conferência de imprensa diária, que o referendo foi "ilegal" ao abrigo da constituição espanhola, mas sustentou que "a violência nunca pode ser um instrumento na política".

Berlim também já reagiu: "as imagens que nos chegaram de Espanha ontem mostram o quão é importante parar esta escalada em espiral", frisou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sigmar Gabriel.

Imagens que deixaram "muito perturbado" o responsável das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad al-Hussein, que defendeu que a resposta da polícia "deve ser sempre proporcional e necessária".

Organizações de defesa dos direitos humanos como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch denunciaram o abuso da força exercida pela Guardia Civil

Mais de dois milhões de catalães votaram no referendo de domingo e cerca de 90% dos votantes expressaram-se a favor da independência.