O ex-líder do CDS-PP Paulo Portas despediu-se esta quinta-feira da Assembleia da República num último discurso enquanto deputado, no encerramento de um debate agendado pelos centristas sobre envelhecimento ativo e proteção aos idosos.

Combinei com a presidente do meu partido, de quem gosto muito e em quem confio, fazer esta intervenção num debate que o partido como instituição considerasse relevante. Quero deixar a todos sem distinção - aos meus colegas de bancada, aos meus parceiros de Governo, aos meus adversários políticos, aos funcionários diligentes desta casa, aos jornalistas, pelo seu sentido crítico, um obrigado", agradeceu Paulo Portas no final do discurso.

Paulo Portas disse deixar no parlamento "amigos em todas as bancadas": "Tanto quanto tenho consciência, não deixo inimigos, nem os fiz".

O presidente do parlamento, Eduardo Ferro Rodrigues, desejou as maiores felicidades pessoais e profissionais para a nova fase da vida de Paulo Portas fora da Assembleia e lembrou o ex-líder centrista como um político que "em diversos momentos conseguiu contrariar circunstâncias adversas".

Ao longo destes anos enquanto líder do CDS consolidou um partido que no início da década de 1990 parecia estar a definhar, exerceu altos cargos públicos, deixa no parlamento uma memória muito viva, pelas suas qualidades de orador, pelas suas prestações em tantos debates quinzenais, pelos famosos ‘sound bites' feitos de bom português e de muito eficaz português", afirmou Ferro Rodrigues.

O bom uso da língua portuguesa, a cordialidade e a combatividade de Paulo Portas foram também evocados de seguida, quando todas as lideranças de bancadas intervieram para se despedir e desejar felicidades pessoais a Paulo Portas.

O ex-líder do CDS-PP Paulo Portas defendeu que na atual globalização rigidez e dogmatismo são letais, vencendo a "flexibilidade e o compromisso" laborais, opondo-se à "fartura de ideologia" de "prometer tudo para todos".

No último discurso perante a Assembleia da República, 21 anos depois de tomar posse como deputado pela primeira vez, Paulo Portas interveio no encerramento do debate agendado pelo CDS sobre envelhecimento ativo e proteção aos idosos, para apelar a uma mudança de atitude face à economia aberta e à sociedade digital.

Em globalização a rigidez e o dogmatismo são letais, a flexibilidade e o compromisso vencem", declarou.

Paulo Portas argumentou que, perante o mundo atual, só se controla "o realismo" com que as pessoas e os países se adaptam a esse mesmo mundo, e deu exemplos da economia digital e da designada economia de partilha.

"No mundo em que vivemos, a maior companhia de táxis não é proprietária de táxis (Uber), o maior fornecedor de alojamentos não tem casas (Airbnb), a maior companhia de telecomunicações não tem infraestruturas próprias (Skype), o retalhista mais poderoso não tem inventário (Ali Baba), um dos mais populares proprietários de novos média não cria conteúdos (Facebook), o mais procurado distribuidor de filmes não tem cinemas (Netflix). E assim por diante", ilustrou.

Num mundo assim, cada vez mais ‘tecno', que obviamente muda a frequência, a duração e a natureza do emprego ao longo da vida, faz sentido dedicarmos o essencial das nossas energias a garantir que no Estado, mas só no Estado, só se trabalham 35 horas, quando quatro quintos dos trabalhadores fazem 40 horas?", questionou.

As interrogações prosseguiram: sobre uma administração pública em que, afirmou, "as regalias são perpétuas", quando no setor privado o emprego que se cria tem de ser flexível; sobre a defesa de uma idade da reforma de "caráter mais estático" quando "a evolução da esperança de vida é manifestamente mais dinâmica".

Faz algum sentido numa economia aberta que precisa de exportar, prescindir do valor acrescentado dos portos e permitir que alguns sindicatos, que não são todos, capturem o crescimento com o seu corporativismo, chegando-se à ironia de se fazer acordos não para limitar o despedimento mas para proibir a contratação? ", interrogou também Paulo Portas.

Para o ex-líder do CDS, "o pior serviço" que se presta aos mais velhos "é uma fartura de ideologia que vai dificultar cada etapa da sua vida, incluindo as derradeiras e merecidas etapas com segurança e tranquilidade".

Seria bastante mais útil, como a nossa iniciativa faz, olhar para as melhores práticas na Europa de uso e reutilização do trabalho a tempo parcial, e da reforma parcial, de consentimento da iniciativa e de autonomia da vontade no contributo dos mais velhos para uma sociedade de que são parte e não fardo, ou a permanente adaptação do equilíbrio entre flexibilidade e segurança, num mundo em que, manifestamente, prometer, entre aspas, tudo a todos para toda a vida, fecha aspas, é correr o elevado risco de mentir mesmo sem intenção", sustentou.

Portas enquadrou estas matérias num problema vasto que identifica na Europa, por oposição à economia americana, a mais competitiva do mundo, em que há pleno emprego e onde as pessoas mudam em média 11 vezes de trabalho ao longo da sua carreira, afirmou.

No "velho continente", por outro lado, "o crescimento deixou de garantir um pacto social minimo, e não só não há pleno emprego como há brutalidade no desemprego jovem e de longa duração".

No início da sua intervenção, Paulo Portas defendeu que o aumento da esperança média de vida em Portugal, para quase o dobro do verificado há 100 anos, coloca questões para as quais as respostas "são mais complexas do que a ladainha dos direitos adquiridos permite alcançar".

Também na introdução da sua intervenção, que durou cerca de 15 minutos, Paulo Portas defendeu o papel dos conservadores na paz social e no progresso nas relações laborais, citando "Bismark, autor do seguro social, e Churchill, legislador do subsídio de desemprego".

Paulo Portas defendeu que "a reconstrução da Europa e o seu modelo de prosperidade a partir das ruínas trágicas da II Guerra não se fizeram com a cultura do protesto, fizeram-se, passo a passo, com a cultura do compromisso entre empregadores e empregados e com a cultura do equilíbrio possível entre gerações".