A notícia da grande revelação (somente ainda parcial) das teias financeiras do capitalismo conseguiu o primeiro lugar do ranking de notícias esta semana. É interessante, pois, ver o que os media fizeram com a questão dos documentos do Panamá. 

Em primeiro lugar, foram na terminologia importada de paragens anglo-americanas (porquê essa designação “Panama papers”?!).

Em segundo lugar, atiraram-se a Putin e aos Almodovares, pessoalizando algo que afinal é mais estrutural.

Em terceiro lugar, precisamente por isso ficou subordinada toda a questão do papel primordial de paragens como as Ilhas Virgens Britânicas, Hong Kong ou outras jurisdições de encobrimento fiscal que alguns países da União Europeia instrumentalizaram como rodas dentadas dos seus muito sérios e ocidentais modelos de negócio.

As referências ao Panamá em si mesmo, aos líderes políticos russos e chineses, às celebridades globais e a cidadãos portugueses encobrem mais do que explicam. Por isso é que até hoje nada se passou debaixo das barbas dos jornalistas europeus, os quais sempre têm tido à mão nada menos que três quintos do fenómeno das “offshores” mundiais.

Não esquecer que tivemos ainda as audições ao caso Banif, o congresso do PSD e o caso da tal empresa britânica Arrow Global. Estes três destaques têm algo em comum: afinal a estrela da semana, Maria Luís Albuquerque! A nova direção do partido levou a surpresa e alguma estupefacção por ter elevado a Vice alguém que vai receber mais dinheiro por mês por trabalhar para uma casa financeira do que para o parlamento. Alguém que tem “Swaps” e a dissolução do Banif no CV. A confusa liderança do PSD cauciona tudo isso.

No contexto do ciclone que a papelada do Panamá fez voar esta semana temos aqui um excelente paralelo: Passos Coelho a fazer girar a porta giratória dos interesses privados e desígnios públicos como se fosse a roleta de um casino. 

Tudo bem, tudo normal, tudo em espiral especulativa: roda a tômbola, desbarate-se a ética, viva a jogatana!

Não foi notícia: Contas de sumir

Apesar de nas escolas se continuar a ensinar que 2+2=4, todos os dias as notícias com base em previsões económicas nos provam que a matemática financeira está muito longe de ser uma ciência exata. Esta semana foi o FMI a apresentar cálculos que desmentem ou, pelo menos, não concordam com as previsões do Governo português. Para o FMI, o crescimento da economia vai ser menor e o défice maior, sugerindo logo à partida que se abandonem medidas como a eliminação da sobretaxa de IRS e dos cortes salariais. Para completar o cerco às previsões governamentais, o FMI alerta que a redução do desemprego oficial vai ser mais lenta do que nos últimos meses. Perante estas discrepâncias, já habituais, nem os media lhes prestaram grande atenção. Estão todos certos, ou todos a mentir com números?

M. C.

Tema emergente: Com quantos Draghi se faz uma jangada?

A vinda de Mário Draghi a Lisboa foi tema duas semanas antes da sua vinda e será tema de novo após a sua passagem pelo Conselho de Estado. Tudo se conjuga para ser importante ouvir o que diz o Presidente do Banco Central Europeu. Senão vejamos, temos a visita de Costa à Grécia (a terra dos Leaks do FMI), a comissão BANIF-BCE-UE no Parlamento, Angola e a intervenção do FMI e os 'Panama Papers' com os offshores da nossa desgraça. Draghi deverá ser o Político-Banqueiro cujas palavras são escutadas e lidas até ao ínfimo pormenor. A sua frase "não revelava um incumprimento particularmente grave" é um "nim" que dá a tranquilidade possível a António Costa e a Marcelo Rebelo de Sousa. Por sua vez, ao dizer "Acolhemos igualmente com agrado o compromisso" está a tranquilizar os mercados e a dizer que não há problemas e, se houver, também não serão "problemas" pois foram antecipados. Lembrando a jangada de pedra de Saramago é caso para dizer que enquanto houver Draghi's nem a Europa nem a península estarão tão à deriva. Resta saber porque temos de depender assim tanto  dos Dragões (em italiano Draghi).

G. C.

Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 414 notícias destacadas diariamente em 16 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 3 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN, DN e Jornal i), as 5 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 5 primeiras notícias nos jornais televisivos das 20 horas (RTP1, SIC e TVI) e as 3 notícias mais destaques nas páginas online de 5 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, SOL, TVI24 e SIC Notícias.