“Alá é grande!”, gritam eles. A manifestação nem por isso. Algumas dezenas de pessoas juntam-se no começo da avenida da Independência, a légua turística de Istambul. Para quarta maior cidade do mundo, nada que preocupe. Mas são essencialmente jovens. Lenços enfaixam a cabeça das mulheres. Avançam certinhos como uma tropa de janízaros. E esta ou aquela plaqueta em inglês, brandida com zelo ortodoxo, denuncia que pertencem ao partido no poder. Ironia local, o corpo feminino da polícia de choque vigia o protesto.

A antiga Bizâncio é hoje um imenso murmúrio. Nada perturba o borbulhar dos repuxos na praça Taksim, o chiar do funicular que desce ao bairro de Gálata, o solene apelo às orações em minaretes apontados ao céu ou o sanguíneo espremer das romãs nas frutarias de esquina. Quase nada. A multidão avança cabisbaixa, olhos mudos nos telemóveis e roupas sombrias a condizer. Por isso, mais destoam os manifestantes. Saem à rua num dia em que o presidente turco defende o regresso da pena de morte. “Nós temos Erdogan, eles não”.

Daqui já se governou meia Europa. O abraço mediterrânico dos sultões foi, durante séculos, da Bósnia até à Argélia. Sente-se na mescla de eslavos, turcos e árabes, hoje empregados num qualquer Burger King ou a conduzir automóveis franceses. O contraponto oriental de Roma, o adversário imperial de Viena. Mas que a história levou a uma vexante candidatura europeia, frustrada por décadas de atrito geopolítico. Migrações, fundamentalismo, direitos humanos... A Turquia dará enfim o troco a 16 de Abril.

Domingo de Páscoa. Curiosa data para Constantinopla referendar o Ocidente. Pois não se trata apenas de multiplicar os poderes de Erdogan na presidência. Mantendo-o à frente do estado até 2029, com uma palavra autocrática sobre o legislativo ou o judiciário, feito Ataturk do século XXI. Só que onde o fundador moderno do regime viu forças obscurantistas, o ex-presidente da câmara de Istambul achou uma base eleitoral. E o conservadorismo islâmico vem infiltrando em passo acelerado a administração laica.

Quem atravessa o Bósforo por 60 cêntimos, percebe que a economia ajudou. Em quatro minutos, o túnel ferroviário mais profundo do planeta liga as duas margens da metrópole. Mas o crescimento dos anos Erdogan como PM foi igualmente de afogamento das liberdades públicas. 200 mil páginas de internet estão inacessíveis. Desde o golpe falhado do ano passado, uma purga atingiu dezenas de milhares de funcionários. A Turquia é o país que mais prende jornalistas, sob acusações tão mimosas como "derrubar o governo".

E será melhor guardar o lugar da mulher para outra ocasião. Porque o referendo também sanciona um discurso presidencial acerca dela "como mãe, acima de tudo o resto". Não admira que tenham disparado no SEF os vistos atribuídos a milionários turcos. Uma tirania está em marcha, mas o governo português evita condená-la. Talvez receie a cimitarra de algum paxá ou festeje no íntimo a censura da imprensa... Daqui a dias, se o plano vingar, eles têm sim Erdogan. De sublime porta da Europa, Istambul regressa ao princípio da Ásia.