“Incomensurável”, foi assim que Manuela Ferreira Leite, comentadora da TVI24, qualificou, nesta quinta-feira, no programa Política Mesmo, a responsabilidade de António Costa perante os portugueses caso se concretize o acordo de governação à esquerda que deite abaixo o Governo de Passos Coelho.
 

“Estamos já numa fase de tal forma avançada que acho extremamente difícil que seja possível recuar. Mas também considero que a responsabilidade que António Costa vai assumir, não só perante o partido, mas isso é problema dele, mas perante o país, é de uma grandeza incomensurável, porque é uma responsabilidade que advém do facto de assumir que vai fazer um acordo para o qual a maioria das pessoas considera que não votou, que é contra uma parte, provavelmente significativa, do próprio partido, e que deita abaixo um Governo que ganhou eleições. Imagine-se o que é que se lhe exige de Governo para que as pessoas pensem que, afinal, valeu a pena”


Para Manuela Ferreira Leite, a existência de um acordo de esquerda tem de representar “algo de concreto” que represente “uma solução estável e que não algo que apenas serve para deitar abaixo o Governo”. “E, depois, no dia seguinte são eles que vão abaixo porque se zangaram todos uns com os outros”, reforçou.
 
A comentadora da TVI24 entende mesmo que para esta “troca de medidas” entre Governo e PS-BE-PCP nem era preciso deitar abaixo o Governo de coligação.
 
“Porque se é só por um ajustamento de medidas, como o Governo não tem maioria absoluta, a oposição estava no seu papel de, perante aquelas medidas que não queriam que o Governo tomasse, de contribuir para alterar as políticas, que era dizer: ‘se vocês querem tomar essas medidas nós não a podemos passar, vamos lá negociar e ver como vão ser ajustadas'”, argumentou.
 
Sobre o facto de Pedro Passos Coelho ter manifestado já a vontade de não querer fazer parte de um Governo de gestão, Manuela Ferreira Leite lembrou o primeiro-ministro que essa é uma decisão que não lhe compete tomar.
 
“Não querer ficar em gestão é uma figura que não existe. Nenhuma função pública pode ser abandonada sem que a pessoa seja substituída, nem um diretor-geral pode abandonar o posto enquanto não for substituído.
Não há a ideia de uma pessoa abandonar o lugar e agora arranjem lá um primeiro-ministro. Tem de ficar em gestão enquanto não for substituído”, observou.

Relativamente à reunião desta quinta-feira do Conselho de Ministros para aprovação do Programa de Governo, Manuela Ferreira Leite disse não compreender por que motivo ocorreu neste dia quando "o problema só se vai por no início de janeiro".

"Há um ponto que não consigo compreender. Por que é que essas medidas tinham de ser aprovadas hoje em Conselho de Ministros para entrarem na Assembleia da República amanhã ou depois. Não compreendo, porque ainda estamos no início de novembro e o problema só se vai por no início de janeiro. E, portanto, é evidente que há aqui um problema de natureza política, um jogo político com certeza", analisou.