Não me incomodam as derrotas. Não valorizo também a vitória, por si só. Ganhar ou perder é sempre uma equação entre a eficácia (o que inclui «persistência») e a honra - ou dignidade. É assim na vida dos homens. É assim em tudo, incluindo o futebol.

É relativamente público que não sou um especial admirador de futebol. É verdade. Porque cresci num tempo em que os atletas de referência foram substituídos por presidentes astutos, debates estéreis sobre a arbitragem, e a mera mercantilização da atividade. O futebol português encheu-se de «peito feito» ao árbitro, cenas de pancadaria, selvajaria mais ou menos subtil... jogadores que passam mais tempo a rebolar-se no relvado e a clamar uma falta do que a correr atrás da bola ou a desmarcarem-se para apoiar a jogada.

Não costumo falar sobre futebol; nem o futebol me perturba. Sejam as derrotas ou as vitórias. Excepto, quando se trata da Seleção Nacional. Os jogos da Seleção Portuguesa não são meros jogos de futebol. São jogos de honra, de afirmação, de carácter, de identidade. E é por isso que se não me incomodam as derrotas, há derrotas insuportáveis! A derrota frente à Alemanha foi destas. Não pelo resultado. Perder por 1 ou por 4 é pouco relevante. Mas há maneiras valorosas de ser derrotado. E é nessa atitude que se encontra sempre a diferença entre vencer ou ser derrotado.

A equipa que eu vi frente à Alemanha - e não percebo nada de futebol - derrotou-se desde o início. Deixaram-se, deixámo-nos todos, ir no berço do talento de Cristiano Ronaldo, o extraordinário melhor jogador do mundo e um capitão exemplar, na mesma galeria de Luís Figo e outros. São estes jogadores que fazem a diferença. Mas eu estou - nós estamos - fartos de ouvir histórias e relatos dos portugueses excelentíssimos que existem em todas as áreas do saber pelo mundo inteiro. Bem o sabemos.

Cada um de nós é excelente nalguma coisa. O problema é que merecemos mais do que talento individual: precisamos de acreditar no parceiro do lado, no companheiro de viagem, no compatriota que acabamos de conhecer, no colega de trabalho que faz o que eu não sei ou não posso fazer. Precisamos e merecemos saber estar; confiar uns nos outros; confiar que o resultado final da equipa será sempre mais valoroso do que um gesto talentoso de um português. É por isso que esta derrota é insuportável: porque a equipa não foi uma equipa; porque não vi camaradagem dentro do campo; porque não vi aquilo que spots de publicidade lembram em cada intervalo televisivo: a primeira regra tática é «acreditar». Nada disso se viu: a equipa falhou; a equipa que é Portugal «falhou»; falhámos todos; porque quando falha a seleção falhamos todos. E nem precisávamos de ver Angela Merkel a aplaudir a sua equipa, o seu povo.

Era isto que Pepe devia saber: que aquela atitude com o adversário é desonrosa, para o próprio e para o país que representa; é insuportável tamanha imaturidade e falta de auto-disciplina... Era isto que eu gostava que tivéssemos mostrado aos alemães e ao resto do mundo.

A nossa capacidade individual soçobrou perante a nossa incapacidade de sermos equipa. E porque os jogos da seleção movem tanta paixão e esperança, gostava que não fosse desperdiçada uma única oportunidade de mostrar o que queremos ser: valentes na disputa, honrosos na derrota, nobres na vitória. Vivemos com tamanha ânsia de demonstrar o que julgamos ser que nos transformamos, fácil e repetidamente, naquilo que os outros vêem em nós.

No futebol e em praticamente tudo o resto. «Nobre povo», diz a letra do nosso hino. Um dia o cumpriremos. Mesmo que milhares de portugueses o sejam.