Tinha um sentido de humor corrosivo, inteligente, radical. Não era de meias tintas, nem se preocupava se os seus comentários chateavam a opinião vigente. Era contracorrente e um dos melhores entre os melhores da sua geração: polémico, controverso, combativo. Nem o percurso académico foi comum. Depois de fazer o bacharelato em engenharia mecânica e ter trabalhado como técnico de fundição de aço, ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa. Passou depois pelo Instituto Superior de Ciências Económicas (atual ISEG), mas não acabou o curso. Fez vida na iniciativa privada, como consultor de empresas, advogado, especializado em fiscalidade, mas guardava tempo para ser professor universitário, uma atividade que lhe dava muito gozo.

Por isso, o comentário televisivo tornou-se um percurso normal num pedagogo e estudioso. Primeiro na TVI, no Jornal das 8, depois na SIC Notícias, mas a parceria duraria pouco: ao fim de ano e meio, Medina sentiu que o estavam a tentar “nivelar” e opta por sair do programa “Plano Inclinado”.

Foi assim a vida inteira: saiu em 1978 do cargo de ministro das Finanças porque não conseguia fazer o que achava melhor para o país. A experiência política foi breve: primeiro em 1975 como subsecretário de Estado do Orçamento e depois com Mário Soares como ministro das Finanças, com o país prestes a entrar em falência. Portugal foi resgatado pela primeira vez pelo Fundo Monetário Internacional. Não negociou com o FMI e achou melhor ir embora: “Ninguém concordava comigo, não estava lá a fazer nada”.

Abandonou o Partido Socialista pouco tempo depois, mas sempre se disse de esquerda: a sua principal preocupação eram os que “não tinham sorte na vida”. Era contudo a direita que se apropriava dos seus comentários, com frases lapidares sobre as finanças públicas e duras críticas ao Governo de José Sócrates. Em 2009, dois anos antes da crise financeira e do resgate, considerou Sócrates “a maior desgraça que aconteceu ao país” e comparava o Ministério das Finanças “a uma barraca de farturas”, “sem credibilidade”.

Em 2011, foi convidado pela TVI para ter um programa semanal, moderado por Judite de Sousa. Foi o relançamento da TVI24, e a primeira contratação para uma nova fase do canal de notícias. Aqui ficou seis anos. Medina Carreira bateu recordes de audiência na TVI24 para programas de grande informação, com um tema hermético para a maioria dos portugueses. Era abordado na rua diariamente. Dizia que esse era um óptimo medidor para saber se o programa tinha algum interesse para as pessoas.

Fazia previsões catastrofistas, pintava cenários negros, pregava no deserto sobre a dívida pública, a despesa do Estado, o défice, e a fraca qualidade dos políticos portugueses. “Também vivem à custa do Estado. Deputados, ministros..., também estão pendurados no Orçamento do Estado”. Numa sessão sobre o Estado Social, na Assembleia da República, olhou para todas as bancadas e acusou os parlamentares de enganarem o país. “É a maior fraude e a culpa é vossa. Têm os dados, os números e os factos [sobre o Estado Social], agora hajam em conformidade”. Sabia que as eleições são quem mais ordena e considerava que os partidos “estão fechados a pessoas de qualidade”.

Recebia como epíteto frequente a de que era um velho do Restelo, um pessimista profissional, uma “cassandra”. Para Medina, estes comentários eram próprios de quem não tem argumentos para rebater as suas testes, mas não se chateava com nada. Era do tempo em que políticos e comentadores diziam frases duras na praça pública, do tempo da troca de “bengaladas” nos jornais. Não dizia que não a um bom confronto intelectual, que travou diversas vezes ao longo dos dois anos que antecederam a intervenção da troika: ser visionário dá trabalho.

Em cada programa, analisava tudo ao pormenor. Em pouco tempo as conversas semanais, cheias de números e gráficos, deram origem a um livro. Nada o fazia mudar o tom: ácido e irónico, sobre o seu livro, dizia que não haveria políticos a lê-lo: “Não gostam disto. Se gostassem o país não estava como está. Isto tem muitos números...”

Há 16 anos, o desgoverno do executivo de Durão Barroso fazia lembrar-lhe um “jogo de futebol entre solteiros e casados. A bola é chutada para o ar e nunca acerta na baliza”.

Haveria muitas piadas para recordar, muitas metáforas, muita ironia. Uma vez usou uma velha máxima futebolística para comentar o futuro governo de Santana Lopes: “Prognósticos só no fim do jogo”. A verdade é que se cá estivesse, continuaria a ter razão bem antes do fim dos 90 minutos.

PS: para além de ter acompanhado a carreira televisiva de Medina Carreira, li muito do que escreveu. Gostava de forma como dava a volta ao típico comentário de economia: não eram monótonos, nem verdadeiros soporíferos. Quando comecei a fazer comentários incipientes na TVI24 pela mão do Jorge Nuno Oliveira, tentei sempre simplificá-los. O Jorge Nuno dizia-me muitos vezes: “Fala para que todos te entendam”. Percebi que se a conversa fosse fluída e algo cómica – por exemplo, dividir a dívida pública externa em Mercedes – passava aos espectadores imagens fáceis de apreender. Ao longo destes anos, encontrei várias vezes Medina Carreira na redação. Um dia – tinha eu começado há pouco a participar no Jornal das 7 – parou-me no meio do caminho. “Gosto muito de a ouvir. Você percebe disto, pá”. Foi a melhor palmada nas costas que recebi.