Marcelo Rebelo de Sousa é desde sexta-feira candidato oficial a Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa deixou de ser, na sexta-feira, comentador da TVI. Nos últimos meses, Marcelo hesitou, Marcelo calculou, Marcelo quis, depois não quis, voltou a querer, a não querer, a dizer que não, a insinuar que sim, até que finalmente decidiu. 

Esta não era, evidentemente, uma situação irrelevante para a Informação da TVI. A saída de uma das suas principais figuras em antena, um homem que durante 15 anos fidelizou uma plateia de milhões de telespetadores, é tudo menos um cenário irrelevante. Mas aquilo que um cidadão pensa ou não fazer da sua vida é algo que lhe diz apenas a si respeito. E a escolha de pessoas para o espaço de opinião numa estação de televisão privada é uma prerrogativa editorial, que os cidadãos e a sociedade validam da forma mais simples possível: carregar num botão e mudar de canal.

A TVI não sabia se Marcelo avançava para Belém. Foi confrontada com isso na noite de quinta-feira quando o comentador comunicou à administração da empresa que, no dia seguinte, iria anunciar publicamente a sua candidatura. A Direção de Informação da estação só teve a confirmação à hora de almoço de sexta-feira. E deu a notícia. Como faria com qualquer outro candidato.

Será doravante assim, como aliás sempre foi a regra desta relação: viva o comentador, este comentador morreu! Terá de se sujeitar. Talvez venha a protestar. Não é um compromisso. Nem um julgamento sumário. Este, como sempre, será feito pelos portugueses. Que vão julgar quem é o melhor para a Presidência. E qual a televisão que preferem para se manter informados. Num caso é um problema dele. No outro é a missão que, a uma redação inteira, continuará a inspirar. 

Um grande comunicador. Não é possível entender, não se consegue sequer explicar, como alguém fala durante 40 minutos, sem imagens, sem som, sem interrupções, sem truques nem efeitos especiais, só ele e um jornalista que o interpela ou questiona, assim, tão simples, anos a fio, e ganha! Ganha sempre.

A sua condição de imbatível tornou-nos invencíveis aos domingos. Não há nada nem ninguém que se lhe compare na televisão, qualquer televisão que seja, em qualquer parte do mundo. Não se conhece nada igual. O que Marcelo fez durante anos e anos é, de certa forma, a antítese da televisão moderna: com ritmo, movimento e cor, a vida revelada em reportagens de curta duração, fora do estúdio, com grafismo sofisticado e pós-produção à maneira. 

Só que o homem conquistou o estatuto de comentador da Nação por mérito próprio. Primeiro na TVI, depois na RTP e de novo na TVI, desde maio de 2010 até ontem. Não é o principal porque é único. Não é consensual porque ganhou inimigos. À sua popularidade, inequívoca, mensurável, sempre se contrapôs uma elite preconceituosa e reacionária. Marcelo tem partido, tem interesses, tem amigos e simpatias. Marcelo nunca foi isento. Popular mas não plural. Católico sem ser santo. Por pluralismo ou puritanismo, os guardiões da moral e dos bons costumes não o queriam ali. Que dividisse o seu espaço por outros. Ou que simplesmente se calasse. 

É o totalitarismo cínico de quem abriu os braços à economia de mercado e exige ao Estado que determine a política de comentários da televisão privada. O país que cantou a liberdade quer que os partidos, por interpostos reguladores, decidam quem entre eles deve ter tempo de antena por decreto ou determinação legal. Participaram nos vários governos que se entregaram de alma e de coração ao “laissez faire, laissez passer”, mas ainda acreditam que a linha editorial está presa ao telefone fixo de um ministro ou do controleiro que o assessora. 

Admito que o tema é suscetível de discussão, mas é errado pensar que nasceu agora e ingénuo reduzi-lo a uma só pessoa. Sucede que Marcelo Rebelo de Sousa não é apenas mais um, porque sempre foi o mais influente e bem-sucedido. Até agora era comentador, ponto-final-parágrafo. Pertence à história da TVI, acrescentou-lhe capítulos, esteve anos a fio a viver a nossa vida e isso era a única coisa que interessava. Para a estação de televisão, que sempre ganhou com ele. Para o próprio, que se sentia bem entre nós.

O pseudo-putativo-proto-candidato à Presidência da República é-o agora de facto. Terminam as angústias intelectuais, a censura ideológica e as tentações regulatórias de uma minoria que ainda convive mal com a liberdade de escolha de milhões de pessoas que sistematicamente lhe davam a preferência. Marcelo ganhava nas audiências. A sua guerra passa a ser das sondagens. É outra guerra. Não é a nossa barricada.