Marcelo Rebelo de Sousa considera que o ex-primeiro-ministro, José Sócrates, que se encontra em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Évora, pode estar a prejudicar a sua defesa (não jurídica) com as cartas que tem enviado à comunicação social.

No habitual comentário dominical, no «Jornal das 8» da TVI, Marcelo Rebelo de Sousa referiu-se em especial à última carta enviada pelo ex-primeiro-ministro, a qual considerou: uma «carta ao lado».

«Acho que a carta foi uma carta ao lado, esta última. Porque para se defender ele [José Sócrates] tem de ter um alvo preciso: se é a Justiça, é a Justiça, se é o juíz, é o juíz, quem for, é. Não pode atacar toda a gente, não pode atacar os políticos todos, nem os professores de direito todos (…) não pode atacar a comunicação social toda. Isto primeiro cansa, depois pode perder eficácia», disse.


Para o professor, Sócrates já parte em desvantagem em relação aos seus opositores e ao «estado de espírito das pessoas», então, se não centrar a sua mensagem, esta acabará por se tornar ineficaz.

«Ele já parte de uma situação em que tem de inverter uma campanha: o estado de espírito das pessoas (que já têm na cabeça uma predisposição negativa) e a campanha dos adversários que é mais forte do que a dele sozinho. Se, ainda por cima, tem uma mensagem difusa na sua defesa, torna-se ineficaz», acrescentou o comentador.


Marcelo Rebelo de Sousa considera que ao falar desta forma «ampla», a figura do ex-primeiro-ministro está a tornar-se uma «sobra» para o Partido Socialista, tendo em conta as eleições do próximo ano, ainda que possa «não ter efeitos» para o sucesso ou insucesso do PS nas legislativas.

«[Sócrates] ao politizar desta forma tão ampla, está obviamente a transformar-se numa sombra presente para o PS e para toda a vida política portuguesa durante o ano eleitoral que aí vem. Pode ter efeitos ou não, acho que até pode não ter efeitos no eleitorado. [As sondagens mostram] que ainda há uma diferença, o PS ainda está seis pontos acima do PSD, tem mais do que os dois partidos (PSD/CDS) somados (…), [e] de facto Costa sobrevive, neste mês horrível, e perde um ponto e tal… (…) Agora, a continuação do combate político sobre a sombra de Sócrates… ninguém sabe, é um ponto de interrogação, porque a opinião pública é imprevisível, mas neste momento é uma sombra que vai presidir ao debate político (…)», disse Rebelo de Sousa.


Os «habeas corpus» e a viagem para o Brasil

Durante o seu comentário o professor Marcelo também se referiu aos pedidos de «habeas corpus» entregues para a libertação do ex-primeiro-ministro durante a semana, considerando que a vantagem dos pedidos foi o primeiro ter permitido conhecer os fundamentos que levaram à prisão preventiva de José Sócrates.

«A “vantagem” do pedido de habeas corpus foi que nos permitiu conhecer os fundamentos da decisão do juiz Carlos Alexandre, [que] invocou o perigo de fuga e a perturbação do processo. Soube-se pela comunicação social que José Sócrates teria uma viagem marcada para o dia 24, para o Brasil. (…) Eu não faria uma ligação tão clara entre [o perigo de fuga e a viagem para o Brasil], imagine que era uma viagem marcada por um compromisso antigo: uma conferência uma palestra, um encontro… Só por si não é suficiente. É uma avaliação que só um juiz pode fazer, não se pode dizer “ele tinha marcado a viagem para o dia 24, então é óbvio que se ia pisgar para o Brasil”, só por si não é suficiente».

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As pessoas «podiam estar muito pior se não tivesse existido Mário Soares»

Antes de terminar o seu comentário semanal, Marcelo Rebelo de Sousa não quis deixar de abordar o assunto do dia, nomeadamente, o aniversário de Mário Soares, que este domingo completou 90 anos. 

O comentador da TVI, felicitou o ex-Presidente da República, e afirmou que, ainda que não concorde sempre com as suas opiniões, o país poderia estar muito pior, se Mário Soares nunca tivesse existido.

«Parabéns pelos 90 anos. Podemos discordar em imensas coisas, [mas] há um facto: Mário Soares na luta que teve pela democracia, pela liberdade, antes e depois do 25 de abril, é um homem marcante. Ninguém lhe tira o lugar da história de Portugal, portanto, nesse aspeto, mesmo os que  não gostam nem um bocadinho dele, devem-lhe gratidão por aquilo que ele fez pela democracia e pela liberdade. [Mesmo] os antiliberais e antidemocratas têm de ver, que em períodos cruciais como foi o da revolução, [que foi] um estabilizador da vida política portuguesa, essas pessoas não estariam hoje como estão, [ou] poderiam estar muito pior se não tivesse existido Mário Soares», terminou Rebelo de Sousa.

 
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