A comentadora da TVI, Manuela Ferreira Leite, criticou, esta quinta-feira, o primeiro-ministro pelas suas declarações em relação à atuação do Banco de Portugal (BdP), particularmente sobre a situação dos Lesados do BES, afirmando que António Costa devia ter estado "calado", reconhecendo a independência do BdP.

No programa “Política Mesmo”, a ex-presidente do PSD disse que António Costa não devia ter colocado em causa a “credibilidade” do banco central do país, e que o primeiro-ministro devia ter falado com o Governador “dentro de quatro paredes”.

"A credibilidade do Governo português, seguramente, perante as instituições europeias teve o maior dos abalos com esta afirmação do primeiro-ministro. [António Costa] devia estar calado, ou podia falar à vontade com o Governador dentro de quatro paredes, não era em público. Se queria que se dissessem coisas em público arranjava alguém, um porta-voz, mais ou menos irresponsável que fosse dizer o que quisesse para a televisão. Nunca vi isto. Um primeiro-ministro que tenta desfazer na credibilidade do Banco central do país."

Manuela Ferreira Leite admite que o Banco de Portugal até poderia prestar esclarecimentos públicos sobre a situação dos lesados do BES, porém, em circunstância alguma deveria António Costa ter feito críticas à instituição em público.

“Admito que o primeiro-ministro possa estar cheio de razão. (…) Mas de uma coisa tenho a certeza, não pode nenhum primeiro-ministro dizer o que o nosso disse. Porque se o primeiro-ministro deste país não sabe qual é o estatuto do Banco de Portugal e não respeita uma instituição que deve ser respeitada, e fá-lo publicamente… Não digo que não [pudesse dizer o que quisesse ao Governador], mas era dentro de quatro paredes. Só assim mostrava que respeitava uma instituição que tem obrigação de respeitar.”

A comentadora frisou que por se tratar de entidade independente, o Governo não pode atacar a atuação do BdP e de Carlos Costa, porém as declarações não a surpreendem totalmente, já que os Governos “lidam mal com entidades independentes”.

“Todos os Governos, neste caso os portugueses, lidam muito mal com entidades independentes. Estão habituados a que todas em as instituições o Governo pode dar ordens, pode pedir ajudas, tomar [decisões] que lhes convém, ainda não perceberam o que é que significa uma entidade independente.”

Manuela Ferreira Leite não arriscou afirmar que exista uma agenda política por detrás das críticas ao Banco de Portugal, no entanto, admitiu que “existe aqui uma guerra política”.

 “Não posso dizer se há ou não há. Direi que as aparências falam por si. É evidente que existe aqui uma guerra política. Como disse, os Governos lidam muito mal com instituições independentes. (…) Fazer política com instituições que pela sua independência não devem ser politizadas pode ser uma lesão grave nessa instituição. O facto de se entrar numa fase em que não se respeitam as instituições é muito preocupante do ponto de vista democrático.”

Durante o seu comentário semanal, a ex-presidente do PSD referiu-se, ainda, à polémica em torno das “erratas” feitas à proposta de Orçamento do Estado para 2016. Ferreira Leite não está preocupada com as alterações ao OE, e não tem dúvidas que a oposição ainda vai apresentar as suas propostas.

 “Fiz 17 Orçamentos. Sei que isso pode acontecer. São dezenas de mapas e [um pode obrigar a alterar vários]. (…) O que é preciso é que as contas estejam certas."

 “Tenho fortíssimas dúvidas que não haja [propostas do PSD]. Quando chega àqueles momentos, que os deputados querem fazer propostas, mesmo que saibam que não vão passar, porque a maioria da Assembleia não as vai deixar passar, os deputados fazem-nas quase sempre, para satisfazer o eleitorado.”