O anúncio de que as provas de aferição no corrente ano letivo vão ser facultativas não surpreendeu Manuela Ferreira Leite, para quem “nada” do que o ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues faz é motivo de surpresa.

“Não sei se ele sabe muito bem em que consiste a aferição, parece que não, mas é algo que tem importância para as avaliações do sistema que depois contam para a constituição dos rankings e avaliações das escolas. Mesmo que os alunos saibam imenso, tudo se avalia, tudo se compara e ficamos sem nenhum elemento para entrar nos rankings. Aquilo que mais lamento é que o ministro não tenha percebido que fez recuar o sistema educativo 20 anos", defendeu a comentadora da TVI24, nesta quinta-feira, no seu comentário semanal no programa Política Mesmo.

"E fez recuar porque, neste momento, não tem elementos de aferição para utilizar em comparações internacionais. Não conheço nenhum sistema educativo na Europa, nenhum, em que não haja aferições, comparações e exames. Isto retira a credibilidade à avaliação do sistema, que foi alvo difícil de conquistar", prosseguiu.

Manuela Ferreira Leite gostava de saber, por isso, "qual foi o processo mental que o levou a tomar esta decisão". 

"Não sei o que são provas de aferição facultativas no sistema educativo. Uma prova de aferição não conta para nada e agora implementa uma prova que não conta para os alunos e marca as datas para junho, altura de praia. Gostava de saber quantos alunos vão fazer uma prova que não lhes diz respeito, que é facultativa”, criticou a antiga ministra da Educação do XII Governo Constitucional, liderado por Cavaco Silva.

Manuela Ferreira Leite entende, também, que esta decisão, que considerou “muito gravosa”, representa ainda o “declínio da escola pública”.

“Porque as privadas vão continuar a fazer [provas] e as públicas não têm elementos de credibilidade para comparar com outras e isso é fatal no sistema educativo”, argumentou.

A comentadora da TVI24 apontou também o dedo ao Governo e não apenas ao titular da pasta da Educação, uma vez que foi dado o aval à decisão.

“Esta medida é um decreto-lei e se é um decreto-lei é uma medida do Governo e se é uma medida do Governo significa que houve vários ministros à roda de uma mesa que acharam aquilo bem ou a maioria achou e há um primeiro-ministro que subscreve aquilo”, considerou.

Ainda no âmbito da educação, também o congelamento do aumento das propinas foi criticado por Manuela Ferreira Leite, uma vez que não seriam “três/quatro euros” anuais a fazer a diferença nas contas das famílias.

“É mais um exemplo de que se estão a politizar as decisões. Uma foram os exames, outra são as propinas. Foi uma decisão complexa e difícil de serenar, mas alguém ouviu mais falar de problemas com as propinas ou em manifestações? Já há algum tempo que estava estabelecido um limite máximo para o valor das propinas que estava ao critério das universidades. Não foi pelo problema financeiro que congelaram esse aumento e reabriram um problema político”, antecipou.