Manuela Ferreira Leite confessou não estar solidária com o programa eleitoral da coligação por entender que não está em linha com a matriz social-democrata, segundo a qual três pilares fundamentais – saúde, educação e segurança social – são fornecidos pelo Estado. A comentadora da TVI24 afirmou, esta quinta-feira, no programa “Política Mesmo”, que não tem dúvidas de que o programa da coligação tem uma marca mais forte do CDS-PP, uma vez que o Estado entra num "regime assistencialista", onde o "desenvolvimento social está a ser feito à custa da contração do Estado".

“Não consigo estar solidária porque sou social-democrata e mantenho-me dentro da matriz social-democrata. A ideia com que a social-democracia encara o Estado social assenta em três pilares: a educação, a saúde e a segurança social. E aí considera-se que uma parte importante destes pilares são fornecidos pelo Estado. Se assim não for, entramos num regime assistencialista, o Estado paga aos pobrezinhos.”


Para a comentadora da TVI24, este "regime assistencialista" é demonstrado numa ideia que atravessa todo o texto: a da liberdade de escolha. Uma liberdade que, no seu entender, reforça o papel regulador e fiscalizador do Estado e deixa o acesso à qualidade nestes setores à mercê das possibilidades económicas de cada um.

“No texto vê-se a liberdade de opção e o reforço do papel regulador e fiscalizador do Estado. Em todos os setores há liberdade de escolha e um regulador para tudo. [...] Uma coisa é o Estado ser libertado de determinadas funções que podem ser desempenhadas pelo setor privado. Agora isso não significa que o Estado não tenha que fornecer este serviço em quantidade e em qualidade à população e o Estado deva a ficar a olhar apenas pelos que não podem efetivamente pagar.”


E exemplificou com o caso da educação.

“Ao fim de dez anos, ficamos com um setor em que a qualidade do ensino no privado é para alguns e o público vai ficar com a parte de menor qualidade e portanto para os que menos podem.”


As críticas de Ferreira Leite não ficaram por aqui. Sobre a Segurança Social, a comentadora da TVI24 diz que ficou com muitas dúvidas porque, por um lado, se fala em redistribuição de rendimentos e, por outro, na criação de uma conta individual para cada contribuinte. Mais, não entende porque a sobretaxa de IRS só acaba em 2019, quando a contribuição específica sobre o setor energético acaba em 2018. E até ironizou dizendo: “como sabemos o setor energético tem imensas dificuldades financeiras”.
 

“Não consigo entender porque a sobretaxa do IRS só acaba em 2019 e a contribuição especifica sobre o setor da energia, que como sabemos tem imensas dificuldades financeiras, acaba logo em 2018. E portanto acho que isso é verdadeiramente discutível.  A questão das mães significa que lhes estão a fazer uma promessa para daqui a 40 anos.”


Já na parte económica, para a social-democrata, o programa da coligação está cheio de “se’s”, ou seja, na prática está cheio de intenções que podem não se concretizar.

"Vê-se que há muitas intenções, mas se a situação não melhorar nada daquilo acontece. O primeiro-ministro deu uma entrevista ao Negócios em que diz que inevitavelmente os juros vão aumentar e o preço do petróleo vai aumentar, ou seja, a situação vai ser pior. Está-se a dizer às pessoas que provavelmente aquilo não se vai alcançar."