Os líderes europeus, Alexis Tsipras e os mercados foram unânimes no elogio ao acordo de última hora, na madrugada de segunda-feira, que permite a manutenção da Grécia no euro, por razões muito diferentes, claro. A ‘venezuelização’ da Grécia, o espetro da bancarrota, o precipício económico e social dos gregos, os riscos para a própria zona euro, transformam dúvidas em convicções e profissões de fé em realidades. O mais difícil começará no dia seguinte à assinatura do novo resgate, aí se perceberá se é mesmo um acordo ou um adiamento do inevitável.

Não é de hoje, a construção europeia diz-nos todos os dias que os líderes europeus vivem noutra dimensão e acreditam no que só eles vêem. A insistência na manutenção da Grécia no euro, à força, com mais um resgate, o terceiro, com mais um cheque que eleva as ajudas totais ao país para mais de 400 mil milhões de euros (perdão de dívida a privados incluído), assenta pelo menos em duas condições que não estão asseguradas, nem de perto nem de longe.

Em primeiro lugar, Alexis Tspiras já tem na mão a maioria do parlamento, incluindo os votos de quem o criticava até há poucas semanas, ganhou na política, tornou o país refém da sua própria estratégia. Mas perdeu a rua, especialmente os gregos que nele acreditaram nas eleições de janeiro e no referendo de há duas semanas. 

É evidente que as diferenças de exigência entre o primeiro princípio de acordo, antes do referendo que disse ‘não’ à austeridade, e o segundo, de ontem, há um ‘pormaior’, medido na diferença entre 7,2 mil milhões e os 86 mil milhões de euros. Como seria de esperar que as exigências fossem as mesmas, sobretudo depois de Tsipras ter apoiado e ter ganho um referendo que decidiu um estridente e legítimo ‘não’ a medidas de correção do défice público e do défice externo? Há dúvidas de capacidade política, para não dizer outra coisa, perante um líder que tornou os seus opositores reféns de um apoio no parlamento grego e que perdeu o apoio das ruas (até ver). 

Há, depois, uma segunda condição, ainda mais relevante. Este acordo permite mudar a economia da Grécia? É um incentivo à competitividade de uma economia que tem no turismo praticamente o único produto capaz de ser vendido ao exterior? As medidas de austeridade orçamental são necessárias, mas são recessivas e têm de ser compensadas por outras, no mercado de trabalho, na concorrência, nas privatizações, que incentivem o investimento e o emprego. 

Esta história só agora começou, e está assim por provar que este novo acordo traga alguma coisa de novo à Grécia. Depende mais dos gregos, do seu governo e da disposição do povo para fazer o que não querem.  É a pergunta que vale (ou não) os 86 mil milhões de euros de empréstimo. Será mesmo um acordo ou será um adiamento? Se resultar apenas em mais empréstimos, mesmo que envolva nova reestruturação de dívida, estaremos dentro de três anos a discutir o mesmo, a saída da Grécia, a falência do euro, os cenários mais catastróficas. No máximo, ganharemos tempo, o necessário para completar as peças, muitas, que faltam do euro.