Marcelo Rebelo de Sousa considerou, este domingo, que a vantagem dada nas sondagens à coligação PSD/CDS, para vencer as próximas eleições, se deve a uma sequência de eventos e erros que prejudicaram o PS, como foram as eleições na Grécia ou o caso Sócrates.

No seu comentário no “Jornal das 8” da TVI, Rebelo de Sousa disse que além de problemas alheios ao controlo do Partido Socialista, houve um grande erro que pode custar as eleições a António Costa: o apelo ao voto dos eleitores à esquerda, esquecendo-se da direita.

“[Na Europa é mais fácil ser eleito um partido de centro-direita do que de centro-esquerda], se somarmos a isso o caso Sócrates, (…) o caso [das eleições] na Grécia, o problema das presidenciais e a clivagem interna (má explicação da situação do país em 2011, má avaliação do momento em 2015 [e] o líder muitas vezes sozinho) [percebe-se]. Depois houve um erro: o PS optou pela esquerda.”

Marcelo Rebelo de Sousa explica que os partidos da coligação perderam cerca de 600 mil votos nas sondagens, em relação a 2011, uma ala mais centrista que Costa devia ter conseguido “levar” para o lado do PS. Ao seguir um caminho mais “à esquerda”, em vez de os conquistar, Costa vai transformar estes eleitores em abstencionistas, ou acabará por “devolvê-los” à coligação.

“[Há 600 mil ao centro] que estavam disponíveis para aceitar uma proposta que fosse assim: ‘é uma proposta segura, certa, sem aventura, mas dando mais esperança e acelerando a reposição da situação dos portugueses. Segura na base do programa económico inicial.’ Esses 600 mil que estão hesitantes, uma parte pode deslocar-se outra vez para a coligação, ou fica abstencionista, se a mensagem que ouve é: ‘Nós chumbamos um Orçamento se ganhar a coligação’. (…) António Costa além de apelar ao voto à esquerda [tinha de apelar aos 600 mil] que fugiram a Passos Coelho e Portas.”


O comentador da TVI considera que o anúncio da devolução da sobretaxa do IRS veio na melhor altura da campanha, e também ajudou a coligação a subir nas intenções de voto.

“Já Maria Luís [Albuquerque] tinha falado nisso, agora vieram mais números bons, [que] por uma feliz coincidência calharam na melhor altura da campanha eleitoral. (…) [Números vistos com cautela pela Unidade Técnica de Apoio Orçamental], mas que [ajudam] a coligação PSD/CDS.”


Independentemente de quem venha a receber a maioria dos votos dos portugueses, Marcelo Rebelo de Sousa disse que, após a contagem dos votos, é preciso ver quem tem “serenidade”, quer ganhe ou “perca”.

“[Se não existir maioria absoluta, é preciso ver] se os que ganham têm serenidade, não entram em euforia, porque precisam fazer passar o programa do Governo e o Orçamento. E os que perdem, se têm serenidade, não rompem de forma radical, nem se comprometem no calor da noite. Depois, ver as consequências naqueles que perdem, em termos internos.”
 

O défice e a visão "otimista" de Passos Coelho


Durante o seu comentário, Marcelo Rebelo de Sousa referiu-se, também, ao aumento do défice de 2014, depois do adiamento da venda do Novo Banco, e considerou que a oposição não soube converter os números em votos. Para o comentador, este acabou por ser um “debate falhado”, principalmente para o Partido Socialista.

“Acabou por ser um debate um bocadinho falhado, porque a oposição rematou ao lado. Mais o PS, do que o Bloco de Esquerda e a [CDU]. O Governo fez bem porque rematou para o lado que lhe convinha. É evidente que isto significa um aumento do défice de 2014, e é evidente que é um aumento contabilístico, mas tudo é contabilístico quando se trata de défice. (…) O que é desejável é que haja novo processo rápido, que tenha uma conclusão positiva com a venda (…).”

Sobre as declarações de Passos Coelho sobre o adiamento da venda trazer mais juros para o Estado, Rebelo de Sousa considera que esta é uma visão “otimista” desta “história”.

“É uma visão otimista da história, tudo visto e tudo somado acaba bem o filme, tipo Hollywood dos anos 50, e ainda recebemos juros. Se for assim estamos a dar uma festa em 2016, se não, será mais complicado.

O comentador da TVI referiu-se, ainda, ao caso que envolve o primeiro-ministro José Sócrates – que esta semana viu autorizada a consulta do processo – e considerou que a defesa do ex-líder socialista conseguiu a primeira grande vitória desde o início do caso.

“[Primeiro] é uma vitória clara de José Sócrates e dos seus defensores, depois de várias derrotas em tribunal. Segundo, é uma grande vitória. Terceiro, altera o panorama em termos de estratégia de condução da investigação pelo Ministério Público e de estratégia de intervenção de pelo menos uma parte da comunicação social nesta matéria. Não se sabe se [o acesso] abrange todas as provas ou só algumas, (e o MP vai pedir um esclarecimento) (…) mas é evidente que é completamente diferente investigar sem a defesa ter conhecimento das provas, outra coisa é investigar com a defesa a ter conhecimento.”