Marisa Matias considerou, este sábado, que Portugal precisa “recuperar algumas dimensões de soberania” para fazer frente às “chantagens e pressões” da Comissão Europeia sobre o cumprimento do défice.

No comentário semanal no Jornal das 8 da TVI, a eurodeputada considerou a possibilidade de Portugal ser sancionado pelo incumprimento do défice uma “irresponsabilidade” da Comissão Europeia. A representante do Bloco de Esquerda em Bruxelas recordou que a entidade que quer sancionar Portugal foi a mesma que “demorou quatro anos para perceber que as metas não estavam a ser cumpridas”.

A comentadora da TVI sublinhou ainda que durante os últimos quatro anos, a crise económica, financeira e do desemprego “nunca suscitou à Comissão Europeia nenhuma espécie de alarme relativamente a sanções”

Para Marisa Marias é “mais do que evidente” aquilo que está em causa nesta questão das possíveis sanções a Portugal, e “não é, necessariamente, a questão das metas serem cumpridas ou não”.

O que está aqui em causa é a mudança do Governo e do povo português ter demonstrado vontade de mudança relativamente àquilo que era a norma vinda de Bruxelas, e que foi cumprida de forma muito rigorosa pelo Governo anterior”.

A Comissão Europeia decidiu que, para já, não há sanções a Portugal e Espanha. Contudo Bruxelas volta a analisar o caso português em julho, e irá exigir mais medidas adicionais em 2016 e 2017.

Para a eurodeputada o projeto europeu está a desaparecer. Marisa Matias considera que atualmente “há muita concorrência entre países” e “uma batalha ideológica muito grande” entre os Estados.

Qualquer pessoa percebe, se pensar racionalmente, que o que existe aqui é sobretudo chantagem e pressão, e uma não-aceitação daquilo que foi a vontade do povo português”.

Apesar do alarmismo criado em torno das possíveis sanções a Portugal, entretanto também desvalorizadas pelo Governo e pelo Presidente da República, Marisa Matias acredita “que a Comissão Europeia não irá aplicar nenhumas sanções”. E justifica: Bruxelas “não terá como explicar aplicar [sanções] a Portugal e não aplicar, por exemplo, à França que tem um problema de défice muito grande ou a Itália ou à Alemanha que tem um excedente comercial”.

Para a eurodeputada esta “lógica de uma mão forte sobre os mais fracos e uma mão muito leve sobre os mais fortes, não tem nenhuma razão de existir”, sobretudo quando se faz coincidir com o facto de os governos serem ou não amigos de Bruxelas.

Precisamos recuperar algumas dimensões de soberania para recuperar o que de melhor tem o projeto europeu, do qual já não resta quase nada”, concluiu.

 O comissário europeu da Economia defendeu que Bruxelas deve dar mostras de flexibilidade em relação a Portugal e a Espanha, apesar do incumprimento do défice, mas advertiu que a possibilidade de sanções continua em cima da mesa.

Em entrevista ao semanário alemão Der Spiegel, Günther Oettinger, o comissário da Economia e Sociedades Digitais afirmou que nos casos de Portugal e de Espanha a Comissão Europeia vê “sinais de esperança”, apesar de “os objetivos claramente não terem sido cumpridos”.

“A questão do cumprimento dos critérios do pacto de estabilidade e crescimento é puramente matemática”, mas as conclusões a retirar em caso de incumprimento “também devem ser avaliadas politicamente”, disse.