A Grécia caminha para um novo programa de austeridade e, em Portugal, Passos Coelho recusou no último debate quinzenal que a austeridade tenha atingido os mais pobres. A comentadora da TVI24 Constança Cunha e Sá analisou as palavras do primeiro-ministro, considerando que não correspondem à verdade. 

"Que Passos tenha vindo dizer que nunca tinha vindo prejudicar os mais pobres - a isto chama-se mentir com todas as letras"


Constança Cunha e Sá deu o exemplo do subsídio solidário para idosos, e do subsídio de desemprego. "Acho graça Mota Soares [ministro do Emprego e da Segurança Social] dizer que o subsídio de desemprego desceu porque há menos desempregados, quando o próprio estudo diz taxativamente que há menos gente a receber e os que recebem, recebem menos. Houve cortes nos apoios sociais. E só não houve mais porque o Tribunal Constitucional chumbou", lembrou a jornalista. 

Passos Coelho "quis cortar salários líquidos de 600 euros e pensões líquidas de 650 euros ou vice-versa. É completamente falso, isso. E o resultado é desastroso"


Na comparação entre a situação da Grécia e a austeridade aplicada em Portugal, Cunha e Sá lembrou que o PIB grego caiu 25% antes do governo Syriza e que o ajustamento foi "muito mais doloroso" do que em Portugal, onde a austeridade só não foi mais forte graças ao Tribunal Constitucional. 

E, agora, "embora possamos ter cofres cheios no médio prazo, [isso] não resolve problema no longo prazo", sobretudo se a Grécia saísse do euro. 

"Seguimos caminho completamente diferente daquele que o Syriza quer seguir agora. O tom de negociação é diferente. Os gregos conseguiram que a questão grega fosse levada a cimeira europeia, dando ao assunto carácter político que o assunto tem"


Já entre o governo português e os países credores há uma relação de "cumplicidade", até mesmo de "promiscuidade", segundo a comentadora da TVI24, lembrando a forma como a ministra das Finanças apresentou Portugal como "bom aluno" ao ministro alemão Wolfgang Schauble.

Como o Syriza tem feito frente aos credores, é por isso "que é um alvo a abater". Aliás, a estratégia das instituições é, entende Cunha e Sá, o "desgate permanente" do Governo grego. 

As novas propostas gregas que parecem, agora, agradar mais aos credores não são, ao contrário do que defendeu a líder do BE Catarina Martins, um rompimento com a austeridade: "O próprio primeiro-ministro grego veio dizer que não teve outra alternativa e que foi obrigado", notou Cunha e Sá.

O aumento do IVA, por exemplo, é uma "cedência grande" da parte da liderança Syriza, não sendo "adquirido" que o programa passe no parlamento grego, uma vez que há contestação dentro do próprio partido. 

O que virá depois é que é a grande questão. Havendo acordo, "para já evita-se o cenário de incumprimento e a consequente saída do euro", e a restruturação da dívida parece "impraticável" dada a oposição de vários países europeus. 

Cunha e Sá lembrou, ainda, que "o Syriza é uma consequência do desastre da receita [da austeridade]. É o caos que se instalou na Grécia que provoca a vitória do Syriza".