Na sequência da audição de Vítor Bento, o último presidente do BES antes do banco ser dividido em dois, na comissão parlamentar de inquérito ao BES, Constança Cunha e Sá considerou esta terça-feira, no  espaço de análise na  TVI24 , que a sua versão contraria a dada pela ministra das Finanças, e que «o governo o usou em todo este processo».

A comentadora começa por sublinhar que quando Vítor Bento foi convidado, e quando esteve à frente do BES, durante o tempo de turbulência, lhe pediram insistentemente para ficar, e que para ele o fundo de resolução nunca foi para ele uma alternativa.

Constança Cunha e Sá divide em dois os planos que lhe foram apresentados. Plano A, a recapitalização privada do BES, e plano B, uma intervenção, que sempre lhe foi apresentado como último caso, de recurso a uma recapitalização pública com dinheiros da Troika.

«O que Vítor Bento vem dizer é que entre a ministra e o governador foram inviabilizados o plano A e o plano B».

O plano A porque quando chega a hora de ser testado, o governador do Banco de Portugal lhe dá apenas 48 horas, o que a comentadora considera ser uma «tarefa impraticável», «pedir o impossível, um milagre», dado o «prejuízo monstruoso» de três mil e seiscentos milhões de euros.

No plano B, que se refere ao recurso aos dinheiros do Estado, as versões da ministra e de Vítor Bento divergem.
Vítor Bento afirma que disse à ministra que achava necessário que emitisse uma declaração pública de que em última análise o Estado podia intervir no banco, de forma provisória, e que a considerava essencial para garantir a confiança dos investidores na compra do banco. Sendo que Maria Luís Albuquerque lhe terá dito o contrário, que a hipotética injeção de dinheiro teria o efeito contrário e ia afastar os investidores. «Aqui morre completamente o plano B», afirma Constança.

Maria Luís Albuquerque diz que não foi feito nenhum pedido formal, apesar de no dia 30 ter sido aprovada «clandestinamente» em Conselho de Ministros o fundo de resolução, e ter sido anunciada a Bruxelas a «hipótese de recapitalização pública ou pelo menos uma garantia de «recapitalização pública provisória» a ser substituída pela privada.

«Aparentemente o Governo estava mais que a par, e não podia deixar de estar sobre a solução que ia ser adotada»

Já Bento afirma que não foi feita a formalização por duas razões: não estar mandatado pelos órgãos do banco, e não valer a pena iniciar um procedimento quando se sabe a resposta» - de que o governo não estava interessado na recapitalização pública do banco.

A ministra da pasta das Finanças, na comissão de inquérito, afirmou, no entanto, que nessa altura não tinha tomado nenhuma decisão sobre a matéria, e que a decisão tinha vindo do governador do BdP, por pressão do BCE, que dizia que a solução tinha de ser o fundo de resolução.

«A resolução é uma saída que foi escolhida politicamente pelo governo», «resta saber porque é que o governo tem tantos problemas em dar a cara».

Constança refere que Vítor Bento apenas no dia 1 diz ter tomado conhecimento, e acrescenta que este ainda tentou que o prazo de venda do «banco bom» fosse de 5 anos, «nem isso conseguiu, tiraram-lhe o pouco chão que tinha para atuar», sendo que é nessa altura que pede a demissão, juntamente com o resto da administração, e ainda lhe é pedido para adiar.

«O governo utilizou Vítor Bento em todo este processo».


«Isto não é uma reforma, é uma trapalhada em três atos»

Sobre as 37 propostas de alteração à proposta de reforma do IRS, que vai ser votada pelos deputados esta quarta-feira à tarde, pela maioria PSD/CDS , a comentadora diz tratar-se de «uma trapalhada em três atos», e acusa o governo de andar à boleia «das simulações dos órgãos de comunicação social» sem preverem as consequências.

Constança Cunha e Sá considera estas novas propostas «uma verdadeira revolução na própria revolução que pretendiam fazer», e que a questão do IRS «anda a ser tratada em cima do joelho, sem sustentação».


Para resolver o problema de beneficiar as famílias com mais filhos, «inventou-se a cláusula de salvaguarda», para que todos ficassem iguais, mas emergem dois problemas.

Primeiro o filho de um rico descontar mais do que o de uma pessoa com menor rendimento, e um outro mais afastado dos jornais, que é da dedução dos filhos em famílias monoparentais, assunto ao qual sublinha ter sido dada mais atenção no congresso do PS.