Manuela Ferreira Leite diz que o pedido de ajuda de Angola ao FMI, não tem que ser visto como um acontecimento negativo para a economia daquele país. No espaço do habitual comentário semanal, à quinta-feira, na 21ª Hora, da TVI24, a ex-ministra das Finanças defendeu que Angola pode aproveitar a situação do resgate financeiro para desenhar um modelo de desenvolvimento não apenas dependente do petróleo.

“Parece-me, do meu ponto de vista, que não é uma má notícia para Angola. E não é uma má notícia para Angola porque Angola dificilmente terá um grande futuro se se mantiver totalmente dependente das receitas do petróleo”, afirmou.

Para Manuela Ferreira Leite Angola não aproveitou a época em que as receitas do petróleo eram abundantes para estruturar um modelo de desenvolvimento do país que lhe desse uma visão futura de progresso.

“É bom que [Angola] comece a desenhar um modelo de desenvolvimento não apenas dependente do petróleo cujo futuro não é brilhante”, aconselhou a comentadora.

“Gostaria de ter sido mosca para saber o que Draghi disse”

Sobre a reunião desta quinta-feira do Conselho de Estado, que contou com a presença do presidente do Banco Central Europeu, Manuela Ferreira Leite confessou não saber muito bem a que reformas Mario Draghi se estava a referir quando disse ser preciso manter as reformas do Governo anterior.

“Gostaria muito de ter sido mosca para saber exatamente o que é que Mario Draghi disse na reunião e também para saber o que ele ouviu”, afirmou.

A despeito de considerar que Mario Draghi é a pessoa que salvou o euro, com as intervenções que teve na política monetária em alturas críticas, Manuela Ferreira Leite considera que o presidente do BCE não deixa de ter o pensamento que tem a política europeia.

“E portanto, dentro daquela conceção, que não tem dado resultados brilhantes, mas que para as instituições europeias parece que estão satisfeitos com a realidade que enfrentam, admito que ele tenha uma ideia de necessidades políticas que não são provavelmente aquelas que muitos países têm”, explicou. 

“Há anos” que o tema das offshore está em cima da mesa

No mesmo espaço de comentário, Manuela Ferreira Leite pronunciou-se sobre o escândalo dos Papéis do Panamá para dizer que a Europa tem falhado na reforma do sistema fiscal e “tem falhado tanto que os Papéis do Panamá têm na sua origem uma política fiscal que afasta e que assusta as pessoas”.

A ex-ministra das Finanças disse, por isso, que não ficou totalmente surpreendida com o clamor do escândalo.

“Há anos que este tema está em cima da mesa em qualquer reunião internacional. Na altura em que estava no Ministério das Finanças e que estava nos Ecofin, os conselhos dos ministros das Finanças da União Europeia, isso era um tema absolutamente discutido, analisado, eram feitas propostas, e nunca vi nada feito depois disso”, sublinhou.

Para Manuela Ferreira Leite, o que agora há de novo no caso é que as pessoas, mesmo na base de legalmente o recurso a um paraíso fiscal ser lícito, ninguém está na disposição de aceitar aquilo que se considera moralmente reprovável. Porque nem tudo o que é legal pode ser eticamente aceitável, defendeu a comentadora.