O caso Mário Centeno é "paradigmático" para Manuela Ferreira Leite relativamente à atuação "lastimável" do Ministério Público não só nessa situação, como em outros casos, de que é exemplo a Operação Lex.

Sendo um caso que considero lastimável é um exemplo que nos faz pensar. Lastimável [a atuação do MP]. Dá a sensação que se reage da mesma maneira sendo um caso muito grave ou um caso que não interessa a ninguém"

O caso dos bilhetes pedidos pelo ministro das Finanças foi hoje arquivado. Foram feitas buscas no Ministério das Finanças, e a comentadora da TVI, antiga ministra, lembra que ali "existem elementos altamente confidenciais, desde a questão dos impostos, sigilos bancários". Dados que "não são para estar na praça pública". Verificou-se que o motivo dessas buscas "é quase risível". Por isso, entende que só pode concluir que "estamos a misturar no mesmo saco".

"Há suspeição sobre qualquer coisa que mexa"

O caso Centeno "insere-se num ambiente geral mais vasto". "Não é caso isolado em tudo aquilo que é ambiente do país neste momento". E qual é esse ambiente?

A suspeição permanente que existe sobre tudo, sobre qualquer coisa que mexa. Quase que um clima de alarme social, sobre ideias de corrupção, de falta de seriedade. É algo que paira no ar. São tantos os casos que surgem que acho que se espera tudo de qualquer pessoa, muito mais da classe política"

Ferreira Leite condena que se estejam a "banalizar" casos desta natureza. "Estão as TVs a espera das pessoas para filmar entrada dos inspetores se necessário", como aconteceu ainda esta semana com a operação Lex. Com este tipo de atuação, advertiu, "provavelmente passa-se para segundo plano aquelas que são as verdadeiras questões". O Ministério Público está a "contribuir" para isso.

"Ninguém discute que MP tenha de investigar casos importantes na vida nacional. Ninguém discute que ninguém está acima dessas decisões, mas uma simples denúncia anónima que implica que o MP tenha de averiguar, não haver discernimento suficiente para escolher quais são os casos, evidentemente que é algo que pode descredibilizar outro tipo de investigações e que ajuda a ambiente de desconfiança que acho muito pouco saudável", insistiu.

Operação Lex: "Não é suficiente para ser público"

Mesmo relativamente à Operação Lex e aos indícios conhecidos, Ferreira Leite considera que não se pode determinar já que o que está em causa é grave. Entende que o que se sabe "não é suficiente para ser público, para haver já um julgamento público das pessoas que estão envolvidas", entre elas o juiz desembargador Rui Rangel ou o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira. 

O problema é que é tudo público.  Como é que sabe que é grave? Foi tão público quanto o do ministro das Finanças, que afinal foi arquivado. Não é facto que o ministério Público esteja a investigar que pelos vistos [o caso] passa a ser grave"

Ferreira Leite advertiu ainda para as repercussões internas e externas da publicitação de buscas e investigações. Lembrou que o caso do ministro Centeno já estava no Parlamento Europeu.

É um "caso mau para a imagem do Ministério Público". Disso não tem dúvidas. "Acho que não há nenhum português, nenhum, ou haverá poucos, que não tenha pedido na sua vida um bilhete para ir ao futebol". Só por estar em causa um ministro, não defende que deva ter mais cuidado pelo cargo que ocupa. "Será que algum ministro das Finanças se corrompa por um bilhete de futebol? Ainda por cima gostava que me explicassem para que é que servem aqueles camarotes VIP, se entra alguém e acaba acusado pelo Ministério Público". 

Ferreira Leite entende que o ambiente no país é "quase irrespirável" e que todos os políticos têm, neste momento e mal, "um rótulo de corruptos". Mas considera que não faz sentido que a classe política tenha toda esse rótulo.