O avião mais moderno do mundo atraca no aeroporto de Casablanca. Amarfanhados pelo voo intercontinental, uns 250 passageiros avançam para as portas. Mas logo acabam retidos por dois polícias, na ponte de vidro que leva ao terminal. Verificação dos passaportes... Nas paredes, um banco promete mundos "ailleurs, ici, partout", livres como nos versos de Éluard.

É decerto excentricidade marroquina. À sombra da Europa, as autoridades ignoram que nenhum turismo resiste ao pesadelo burocrático. Nem mesmo após voar de Dreamliner! A vulgar escala tem o documento verificado mais 4 vezes, sempre na zona internacional do Mohammed V. Talvez Casablanca ainda viva um filme onde conseguir visto para Lisboa seja toda a razão de existir.

Horas depois, outro avião da Royal Air Maroc desce na Portela de Sacavém. Mas todo o Ocidente se vai num aviso de bordo: preparar passaportes, para controlo de identidade na manga de acesso. Um velho senegalês benze-se ao passar pelos agentes do SEF, como se fossem mais perigosos do que voar. Ou a mostrar cumplicidade cristã. "Quel est le propos de votre visite?", vão perguntando eles.

Alguns passageiros são de imediato separados para averiguação. Nitidamente cidadãos do Norte de África. Não vão escapulir-se, como andam fazendo os sofisticados argelinos, pela placa do aeroporto ou nas barbas da segurança. E aqui chegados, a estes passadiços de ninguém, importa saber: para que raio investimos há uma década em fronteiras electrónicas de vanguarda?

Para simplesmente meter trancas à porta... Isso vimos com a ministra das polícias, chamada agora ao parlamento. Disse o que está a ser feito para conter mais invasões aeroportuárias. Mas exigiu sessão à porta fechada, tal a delicadeza das medidas. Ou quem sabe o penoso ridículo delas, sublinhado estes dias pelas caretas de Isabel dos Santos após um vôo Luanda-Lisboa. Ficou trancada meia hora num autocarro, à espera de luz verde.

Se nem a princesa regente da Sonangol escapa, imagine-se quem ouviu todos estes anos louvores oficiais ao sistema RAPID nos passaportes. Pioneiro, moderno, completo... E reduzido agora a vistosos cordões de máquinas de fazer "plim!" Porque ao mais pequeno sobressalto, não há como a burocrática e rudimentar "manu militari" para autorizar viajantes. Novas mangas de alpaca. Ou, na poesia incompleta de Paul Éluard, "os mil muros das nossas casas a envelhecerem bem".