Com a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos a ser discutida no Parlamento e o PSD a pedir a criação de uma Comissão de Inquérito, Manuela Ferreira Leite sublinhou, nesta quarta-feira, que é a favor da manutenção do banco nas mãos do Estado e explicou alguns dos motivos que podem justificar a necessidade de injeção de capital.

No comentário semanal da 21.ª Hora, na TVI24, a ex-Ministra das Finanças reconheceu que o facto de não se pronunciar muito sobre a polémica em torno da CGD, “não significa ausência de preocupação”.

Manuela Ferreira Leite relembrou que “sempre” foi apologista da permanência do banco na alçada do Estado, mas também reconheceu não entender a ausência de uma “análise com serenidade” para se compreender o que realmente se passa no interior da instituição.

Está instalada uma discussão sobre a Caixa que qualquer pessoa que não entenda nada, concluiria que a CGD está falida e tem sido gerida por um conjunto de malfeitores”, disse a comentadora.

Para a ex-governante, a necessidade de capitalização pode ser justificada com vários fatores, sem descartar as “consequências de erros passados e da crise”. Em todo o caso, a instrumentalização da CGD para assuntos políticos tem, na análise de Ferreira Leite, consequências desprestigiantes para o banco.

“A Caixa sempre foi muito utilizada como instrumento de natureza politica” e “neste momento, como é óbvio, é uma arma de arremesso político”, alertou, sublinhando que tal instrumentalização é “muito perigosa” para a confiança numa instituição da dimensão e importância da CGD.

Tenho pena que a Caixa, que é uma instituição com esta dimensão e com esta força e importância na economia portuguesa, esteja a ser manchada com o tipo de discussão que está a ser feita.”

Ainda que admita a necessidade e o direito de ser criada uma comissão de inquérito para esclarecer a situação financeira do banco público, a comentadora da TVI sublinhou a escolha inoportuna do momento.

Não estou em desacordo que se faça uma análise sobre a CGD mas porquê neste momento? É inoportuno, no mínimo. Porque se é interessante, democrático e lógico que as pessoas saibam o que se passou no banco público, também é necessário que haja a consciência que é o momento menos oportuno para o fazer”, afirmou.

Para Manuela Ferreira Leite, a discussão entre o Governo, Bruxelas e os partidos está a ser mal conduzida. A social-democrata disse ainda que não acredita que exista um buraco financeiro e desvalorizou a necessidade de 4 mil milhões de euros para a recapitalização.

É neste aspeto que Manuela Ferreira Leite apontou responsabilidades ao Governo. Se é verdade que todos os bancos tiveram necessidade de aumentar o seu capital, seria igualmente natural que também o banco público fosse passar pelo mesmo processo.

Aquilo que acho que é um erro enorme deste Governo, foi o facto de ter atirado para cima da mesa das negociações, a ideia de que o aumento de capital que a CGD precisava era de 4 mil milhões de euros. Acho que isso é um erro tremendo”, apontou.

A comentadora explicou que, na sua opinião, tal afirmação do Governo “deu azo a que a grande discussão seja ‘por que é que são necessários 4 mil milhões? O que é que aconteceu…’”. Na sua opinião, a administração do banco lançou este valor para conseguir o encaixe financeiro necessário e criar uma “folga” de capital.

Manuela Ferreira Leite terminou dizendo que a discussão “está a ser mal conduzida” e sugeriu que se devia focar no montante realmente necessário.

Este Governo para resolver um problema de ter uma administração mais confortável, está a tentar pôr uma medida que leva a uma destruição da imagem da CGD.”

A comentadora da TVI24 voltou ainda à intenção do Governo de usar o fundo de estabilização financeira da segurança social para reabilitação urbana. Manuela Ferreira Leite lembrou que o dinheiro não pode ser mexido porque “o valor está à guarda do Estado, mas não é do Estado”, pertence aos contribuintes.

“É impossível ter o retorno de 4% como anunciam quando é para a aplicação num mercado imobiliário de rendas controladas.”

A ex-governante concluiu e disse que este “ponto não devia ser esquecido e devia ser discutido para se evitar males maiores no futuro”.