A ruptura das negociações entre os líderes europeus e o Governo grego mostra-nos, outra vez, uma Europa no seu pior, impreparada para gerir crises e para tomar decisões. Mais uma vez, já cansa, a Europa do euro chegou ao limite sem uma alternativa para uma estratégia radical do Syrisa que, na verdade, nunca quis um acordo, mas apenas responsabilizar os europeus pela tragédia grega e perpetuar-se no poder.

Custa a perceber a ingenuidade de Angela Merkel, de Mário Draghi, de Jean-Claude Juncker - Christine Lagarde, do FMI, sempre foi mais cuidadosa - na negociação com Tsipras. O primeiro-ministro grego e o ministro-estrela das Finanças, Varoufakis, andam há meses a gerir politicamente o que queriam que acontecesse, o fracasso de negociações. Simplesmente porque não querem reformar a Grécia, querem mais dinheiro, menos dívida, e que tudo continue na mesma.

Como é possível que a Europa, a Alemanha, o BCE e a Comissão Europeia cheguem à 25ª hora sem um plano B, credível. A saída da Grécia do euro não é a solução desejada, abre caminhos nunca dantes percorridos, vai testar o projeto do euro como nunca antes tinha sido testado, mas pior é ter uma Grécia que não cumpre nem quer cumprir, uma Grécia que tem um governo democraticamente eleito que não quer cumprir as regras impostas a todos os outros.  Não há mais democracia na Grécia do que na Alemanha. Ou em Portugal.

O Syrisa chegou ao poder em Janeiro, e desde então, ao sol prometido, só sobrou tempestade. Não há acordo porque, simplesmente, não pode haver. E se houver, porque na última hora, a pressão da opinião pública grega e, agora, até do Banco Central da Grécia a isso obrigar, não vai resistir ao tempo.

Sim, a dívida pública da Grécia não é sustentável. Mas se a Europa aceita um novo perdão sem mais, já se percebeu que nada vai mudar. Isso já aconteceu com o primeiro perdão. A Europa tem a última oportunidade para dar a mão à Grécia, a Grécia tem a última oportunidade para agarrar a mão da Europa. A partir daqui, será um montanha russa. Em primeiro lugar, para os gregos. Não, não são os menos culpados, são os responsáveis pela eleição de um Governo de loucos que prometeu o que não podia, que esperava vergar a Europa - e todos os outros eleitorados - à custa da chantagem e do medo do caos.

A Grécia não deveria ter entrado no euro e, agora, o melhor que a Europa pode fazer é ajudá-la a sair. O que separa a Grécia da Europa não são dois mil milhões, fossem, por mais austeridade que isso obrigasse, é muito mais, é uma forma de estar que não é compatível com a convivência num espaço monetário único. Não são os cortes das pensões (mais elevadas), não é o fim da taxa reduzida de IVA nem sequer as mudanças no mercado de trabalho.

Claro que há riscos na saída da Grécia do euro, Portugal estará sob pressão outra vez, apesar dos cofres cheios. Riscos, sobretudo a médio e longo prazo, sobretudo geopolíticos. Especialmente se não for uma saída preparada e acordada. E ninguém tem a resposta para o dia seguinte. Mas é uma falácia considerar que a ‘Gréxit’ é um problema porque mostra que o euro não é irreversível. Porquê? Porque já não era, nunca foi. Também garantiam que não haveria ‘haircut’ de dívida de Estados soberanos. E houve. O euro é uma construção política, que tem de ser trabalhada e suportada todos os dias. E em permanente evolução.

A Grécia não pode ser deixada ao seu destino, nem sequer deixada nas mãos do Syrisa, e é isso que sucederá se, simplesmente, a Europa do euro nada fizer e deixar a Grécia numa situação de implosão financeira, primeiro, económica e social logo a seguir. Ou pior.

Se a Grécia não tem condições para estar no euro - e não tem nesta fase histórica do país - tem todas as condições para ficar na União Europeia, e os líderes europeus têm motivos e razões suficientes para apoiar esse caminho, para evitar uma saída suja, que a levaria par os braços da Rússia.