Minutos antes das nove da noite em Dallas, no Texas, quase três da manhã em Lisboa. Terminava a manifestação contra a violência policial sobre cidadãos negros, que voltou a estar na origem de duas mortes nos dois últimos dias. No centro da cidade estavam cerca de 800 manifestantes e uma centena de polícias.

Irrompeu o tiroteio. O centro da cidade de Dallas, no estado norte-americano do Texas voltou a ser palco de mortes. Um cenário historicamente conhecido: a manifestação ocorreu a apenas dois quarteirões da praça Dealey, onde, em 1963, o 35º presidente norte-americano, J.F. Kennedy foi abatido.

Desta vez, os presumíveis atiradores escolheram como alvo, os polícias. O tiroteio é já considerado o maior contra forças de segurança desde os atentados de 11 de setembro de 2001.

Pelas informações, entretanto atualizadas,a polícia presume terem sido quatro atiradores a alvejar doze agentes a partir de posições elevadas, nos telhados de prédios.

Alguns agentes foram alvejados pelas costas. Acreditamos que os suspeitos estavam posicionados de forma a encurralar os policias", salientou na manhã de sexta-feira o chefe da políca de Dallas, David O. Brown.

Cinco polícias foram mortos. Sete outros ficaram feridos, tal como dois outros cidadãos, segundo as últimas informações dadas pela polícia. Um dos casos é o de uma mulher, que protegeu os quatro filhos com o seu próprio corpo, de acordo com o relato de familiares. Três suspeitos foram entretanto detidos, sem que as autoridades tenham a certeza absoluta de que terão responsabilidades no tiroteio.

Um dos atiradores, entretanto identificado como sendo Micah Johnson, de 25 anos, emboscou-se numa garagem envolvendo-se em aceso tiroteio com a polícia.

Disse que estava furioso por causa das mortes de cidadãos negros e dos recentes incidentes com a polícia", adiantou, na manhã de sexta-feira, o chefe da polícia David Brown, acrescentando que o atirador terá afirmado pretender "matar agentes brancos" e estar a agir sozinho. 

Encurralado, cerca das três da manhã locais, a polícia pôs cobro à situação, recorrendo a um robô armadilhado.

Não vimos outra solução senão usar um robô-bomba, com um detonador para deflagrar o engenho no local onde o suspeito estava", acrescentou David Brown, salientando que "as outras opções colocariam os agentes em grave perigo".

O atirador morreu em consequência da explosão do engenho. Antes, avisara que tinha colocado bombas em vários locais da cidade de Dallas, algo que os agentes tentaram depois confirmar, vasculhando as imediações.

Matança planeada

A manhã de sexta-feira foi de nervos em franja em Dallas. Para o presidente do município, Mike Rawlings, o centro da cidade continua a ser considerado “um cenário ativo de crime”. Por isso, aconselhou todos o que fossem trabalhar no local a consultar o site da autarquia para saber quais as zonas que devem ser evitadas.

Cerca das cinco da manhã em Dallas, onze em Lisboa, a polícia decidiu criar uma zona de segurança no centro da cidade.

Tudo está fechado dentro desta área. Ninguém entra e ninguém sai", foram então as palavras de um oficial da polícia, em conferência de imprensa.

Após duas operações no centro da cidade, a polícia não detetou quaisquer explosivos. Mas continua à procura de potenciais suspeitos. Considera haver ainda responsáveis à solta, do que entende como tendo sido um ataque organizado.

Acreditamos que os suspeitos se posicionaram para encurralar os nossos agentes e planearam ferir e matar tantos quantos conseguissem”, sublinhou o chefe da polícia de Dallas, David Brown.

A tese da polícia é aparentemente sustentada por relatos de participantes na manifestação, que estavam a desmobilizar após o protesto pacífico contra a morte de dois negros nos últimos dias, nos estados de Louisiana e Minnesota.

Eles continuavam a disparar. Os tiros vinham e não se sabia de onde. Não vi mais ninguém ser atingido. Eram só os polícias”, contou Cortney Washington, uma das manifestantes à cadeia de televisão NBC.

“Cruel, desprezível e calculado”

Em Varsóvia, na Polónia, por via da cimeira da NATO, o presidente norte-americano manteve-se ao corrente da situação e já falou com o governador do Estado do Texas.

"Cruel, desprezível e calculado”, foi a forma como Obama catalogou o sucedido, considerando estar “horrorizado. Não há qualquer justificação para estes ataques"

Obama sublinhou ainda e uma vez mais, o problema da proliferação e venda sem grandes restrições de armas a civis nos Estados Unidos, uma das grandes causas dos seus dois mandatos como presidente, que tem encontrado sucessiva oposição no Congresso.

Sabemos que as pessoas têm armas poderosas que tornam ataques destes mais mortíferos, mais trágicos. Nos próximos tempos teremos de encarar esta realidade” sublinhou o presidente dos Estados Unidos, falando em Varsóvia sobre o massacre ocorrido em Dallas.

Em pré-campanha para suceder a Obama, a potencial candidata democrata Hillary Clinton suspendeu uma ação de campanha em Scranton, na Pensilvânia, onde deveria aparecer ao lado do vice-presidente Joe Biden. Do lado Republicano, Donald Trump também desistiu de viajar para Miami, pelos mesmos motivos.

Tensão racial de regresso

O tiroteio em Dallas surge na sequência de mais dois casos de mortes de cidadãos afro-americanos em operações policiais. A manifestação ocorrida foi umas das que foram convocadas para imensas cidades dos Estados Unidos, em protesto contra o alegado excesso de força da polícia.

Quarta-feira, em Baton Rouge, no estado de Louisiana, dois polícias alvejaram e mataram um cidadão negro. No dia seguinte, em Minneapolis, no estado de Minnesota, um supervisor de um refeitório, de 32 anos, foi alvejado dentro do próprio carro, ao lado da namorada, que transmitiu toda a sua agonia antes da morte através do Facebook.

Teria isto acontecido se esses passageiros fossem brancos? Não o creio”. A consideração partiu do governador do Estado de MInnesota, Mark Dayton, falando à multidão que quinta-feira à noite se concentrou à porta da sua residência oficial.

Já no final do ano passado, diversas manifestações foram organizadas pelo grupo Black Lives Matter (As Vidas dos Negros têm Valor), então protestando contra outros casos de uso da força pela polícia contra cidadãos negros, por exemplo, nas cidades de FergusonBaltimore.