O antigo secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros João Gomes Cravinho (PS) diz que Portugal abdicou de tomar uma posição contra o apartheid na África do Sul, no que considera ter sido «um erro da política externa portuguesa».

Num texto publicado na sua página pessoal no Facebook, João Cravinho, atualmente embaixador da União Europeia na Índia, critica a postura de Portugal por, no final da década de 1980, se ter colocado ao lado dos Estados Unidos e do Reino Unido, enquanto o resto da Europa e várias dezenas de países de todo o mundo condenavam o apartheid.

PCP e Bloco de Esquerda criticaram no Parlamento que Portugal tenha votado em 1987 - quando era primeiro-ministro o atual Presidente da República - contra uma resolução das Nações Unidas que pedia, entre outros pontos, a libertação de Nelson Mandela, uma posição que Cavaco Silva já justificou com a recusa da luta armada.

Cravinho, que, após a libertação de Nelson Mandela, em 1990, esteve na África do Sul «a tentar construir pontes entre a comunidade portuguesa (que por erros próprios e dos governantes em Lisboa tinha entretanto ficado completamente isolada) e os representantes da luta contra o apartheid», acusa o então ministro dos Negócios Estrangeiros, João de Deus Pinheiro, de ter abdicado de «responsabilidade em termos da posição face ao regime sul-africano».

Na opinião do ex-secretário de Estado dos governos de José Sócrates, as posições portuguesas eram então «essencialmente ditadas por meia dúzia de comendadores da comunidade portuguesa, fortemente apoiados por Alberto João Jardim», que faziam chegar a Lisboa «a necessidade de apoiar diplomaticamente o regime do apartheid».

«É assim que Portugal se vê, nos anos 80, numa posição de alinhamento com as posições de Reagan e Thatcher, destoando da forma como na Europa e em quase todo o mundo se olhava para o regime do apartheid. Foi claramente um erro da política externa portuguesa, porque em vez de preparar a comunidade portuguesa para a transição encorajou-a a manter-se numa posição de defesa intransigente do regime», considera Cravinho.

Num texto em que, como afirmou hoje à Lusa, não pretende ¿criar polémicas¿, o ex-governante socialista sustenta que ¿a mudança chegou muitíssimo tarde, quase em cima do colapso do regime¿, após a chegada do novo embaixador da África do Sul, José Cutileiro.

«Claro que a boa educação mandava que houvesse declarações de voto aquando da tomada de posições em Nova Iorque ou Bruxelas, mas a realidade é bastante simples, e espanta agora, vinte e tal anos mais tarde, que se venha sugerir que as posições assumidas pela diplomacia portuguesa eram as melhores possíveis. Não eram, manifestamente não eram», sublinha.

Em novembro de 1987, o Governo de Cavaco Silva votou contra e a favor de resoluções diferentes das Nações Unidas que pediam a libertação de Nelson Mandela, tendo justificado, em declaração de voto, o voto contrário a uma delas por legitimar o recurso à violência.

A morte de Nelson Mandela, o primeiro Presidente negro da África do Sul, entre 1994 e 1999, foi anunciada no dia 05 de dezembro à noite. O histórico líder sul-africano, prémio Nobel da Paz, esteve preso durante 27 anos pela sua luta contra o regime de segregação racial (apartheid) no seu país.