O presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB) acredita que os bancos portugueses não precisarão de recorrer a mais dinheiros públicos se não se registarem «degradações da economia».

«Se não se registarem degradações da economia, que se traduzam em maiores incumprimentos de crédito, espero que não seja necessário o recurso ao Fundo de Recapitalização (embora este tenha sido previsto e constituído para ser utilizado, se necessário)», disse Fernando Faria de Oliveira, numa declaração escrita enviada à agência Lusa.

A APB reagia ao anúncio feito esta manhã pelo Banco Central Europeu (BCE), que vai começar em novembro a fazer várias avaliações a 130 bancos europeus, entre os quais quatro bancos portugueses - BPI, BCP, CGD e Grupo Espírito Santo (que detém o BES).

O exercício, explicou Faria de Oliveira, é uma «preparação para a assunção, pelo BCE, da responsabilidade de supervisão», no âmbito do Mecanismo Único de Supervisão.

O BCE ainda não divulgou os cenários de tensão e a metodologia a que os bancos serão sujeitos, mas vai exigir um rácio de capital mínimo core tier 1 (segundo os critérios de Basileia III) de 8%.

Faria de Oliveira recordou que os bancos portugueses têm um rácio core tier 1 (medida de avaliar a solvabilidade de um banco) de 11,5% segundo as regras do Banco de Portugal (que não são as mesmas que vão ser usadas pelo BCE), um «valor confortável».

O presidente da APB recordou ainda que o Banco de Portugal tem feito várias ações de supervisão e que os bancos portugueses passaram nos testes de resistência feitos pela Autoridade Bancária Europeia (EBA, na sigla inglesa).

Vários economistas contactados pela Lusa acreditam que os bancos portugueses não vão chumbar na avaliação mas preveem que seja necessário um aumento das provisões.

Para Steven Santos, gestor de contas da corretora XTB, a «maior surpresa» no anúncio do BCE foi a exigência do rácio de capital mínimo de 8% no pior cenário.

Um analista de banca não identificado também disse que era espectável um valor mais baixo, em torno de 7%, mas considera que mesmo assim os bancos portugueses deverão passar o teste.

«Não vejo razões para haver alarme significativo. Não espero que aconteça» um chumbo, afirmou, explicando que os bancos têm de apresentar o rácio mínimo de 8% mas tendo em conta os balanços que esperam ter em 2018 (usando as simulações que constam dos planos validados pelo Banco de Portugal) e não os atuais, pelo que a economia deverá ter feito alguma recuperação com impacto nos resultados positivos gerados pelas instituições.

Além disso, lembrou, os bancos têm vindo a fazer aumentos de capital e o Banco de Portugal tem intensificado cada vez mais as exigências para prevenir más surpresas.

Caso os bancos precisem de reforçar capital, serão estipuladas medidas corretivas, como venda de ativos ou recapitalização, seja através de investidores privados seja com recurso a ajudas públicas.

Já quanto à fase de avaliação de ativos que o BCE irá fazer, os especialistas contactados esperam que, na sequência disso, os bancos precisem de aumentar o valor das provisões.

«Todas as classes de ativos serão escrutinadas, com as carteiras imobiliárias e o incumprimento na dívida a poderem penalizar os bancos nacionais», afirmou Steven Santos.

Também Pedro Lino, da Dif Broker, considera que é «bem possível que [os bancos portugueses] tenham de reforçar provisões», apesar de no primeiro semestre já terem aumentado as imparidades a contar com cenários mais negativos.