Por: José Guinot / Fotos: João Cabral | 10- 5- 2010 10: 55
Quando era pequena queria ser astrofísica. O avô materno foi piloto e o pai, cirurgião, foi médico da Força Aérea quando
ela tinha 5 anos. Talvez estes dois factores tenham contribuído para a decisão profissional de Diana Gomes da Silva: ser piloto
de aviões. Hoje, é piloto de médio curso na Sata Internacional e voar é a sua rotina normal de trabalho. À paixão dos aviões
juntou-se o gosto (e uma certa dose de loucura) pela acrobacia aérea. É a única mulher da Península Ibérica que o faz. E a
mais nova do mundo. Tem dois aviões e, com o namorado, piloto da TAP, quer criar uma empresa de acrobacias para participar
em espectáculos e festivais aéreos.
Lux - Porquê ser piloto?
Diana Gomes da Silva - Não sei dizer
o momento exacto da minha vida em que decidi ser piloto, mas sempre fiz desporto: atletismo, bodyboard, snowboard, moto, escalada...
Ou seja, sempre estive ligada ao desporto radical e sempre adorei aviões. Depois, tive um amigo que fez um curso de piloto
e comecei a interessar-me pelo assunto. Acabei por fazer uma espécie de exame para ver se tinha aptidão para pilotar. Tinha
17 anos. Entretanto, fui assistente de bordo na Air Luxor durante um Verão. Nessa altura, tive a certeza de que queria ser
piloto.
Lux - Acabou o curso, e depois?
D.G.S. - Fiz fotografia aérea durante uns meses, a seguir fiz
um curso de instrutora e fiquei a trabalhar para a OMNI que fazia voos para a TAP.
Lux - Quantas mulheres piloto
existem em Portugal?
D.G.S. - Cerca de 30, num universo de mais de três mil homens.
Lux ¿ Sentiu algum preconceito?
D.G.S.
- Honestamente, não. Bem pelo contrário. Fui sempre bem tratada e hoje em dia sinto que as pessoas têm por mim um carinho
especial por ser mulher e ser tão nova.
Lux - E os passageiros? Qual é a reacção deles?
D.G.S. - A maioria
fica surpreendida. Não dizem nada, mas nota-se a curiosidade. Ainda é uma novidade.
Lux - Quando é que fez o seu
primeiro voo «a sério»?
D.G.S. - Na vida de um piloto, o voo que nos marca mais é o da largada, ou seja, o primeiro
dia em que vamos sozinhos. Não é um voo normal. Estamos com o instrutor, fazemos várias horas de voo, ao fim das quais o instrutor
nos passa o avião. Fazemos duas ou três aterragens e pronto, já somos um piloto largado.
Lux - Então, qual foi
o primeiro voo oficial, digamos?
D.G.S. - O mais importante foi o voo base, que foi o primeiro num Airbus 320,
de 70 toneladas, na Sata Internacional. Foi na Madeira, que é a ilha do meu pai. Aterrei em Porto Santo e, quando saí do avião,
olhei e pensei: «Fui eu que aterrei isto!» Nunca mais me vou esquecer daquele dia, foi uma experiência extraordinária, fora
de série. É uma sensação de poder... Foi um orgulho enorme.
Lux - Mas, antes, já tinha feito voos com passageiros,
certo?
D.G.S. - Sim, na OMNI. O primeiro foi Lisboa-Bilbau. Voava muito para Espanha: Bilbau, Málaga, Corunha,
Barcelona, Valência... Foi uma boa escola, adorei esses tempos, mas voava num avião que levava poucos passageiros e pesava
sete toneladas. O Airbus 320 é outra coisa.
Lux - Já teve alguns sustos em voo?
D.G.S. - Nunca vivi
situações verdadeiramente dramáticas. Já tive um trem de aterragem que não desceu, já tive pássaros a baterem no nariz do
avião... São coisas que acontecem, o melhor é relativizar. Somos intensa e constantemente treinados para os imprevistos. Estamos
em estudo permanente. Os aviões, por sua vez, fazem muitas inspecções. É tudo muito controlado. Alguém faz treinos regulares
para conduzir um carro? Não. Alguém faz inspecção ao seu carro, após cada viagem? Não. Voar é o meio mais seguro para viajar.
Lux
- É costume dizer-se que os comissários de bordo e os pilotos não têm vida. É verdade?
D.G.S. - Não partilho dessa
opinião. Temos uma vida diferente e temos de nos adaptar...
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