LCD Soudsystem? O nome talvez devesse ser LCD Loudsystem.

No terceiro tema que cantou, James Murphy repetiu várias vezes “I can change, I can change, I can change”, que significa “sou capaz de mudar”. Será mesmo? Do lado do público ninguém diria, porque passados cinco anos após o fim da sua banda, nada mudou. Os LCD Soundsystem continuam iguais a si mesmos: não envelheceram, nem perderam fôlego. Nem parece que estiveram cinco anos parados.

A banda despediu-se em 2011 num concerto no Madison Square Garden, em Nova Iorque, que esgotou em minutos, e nada fazia prever que regressariam aos palcos, mas voltaram este ano. Antes de regressarem a Paredes de Coura passaram por festivais como o Coachella e o Lollapalooza, daí que o diretor do VPDC, João Carvalho, talvez tenha razão quando disse à TVI24 que este era o nome que todos os festivais queriam ter nos alinhamentos. Depois deste espetáculo fica à vista o porquê. Aliás, mais à frente, em “Tribulations”, Murphy disse, também várias vezes, que “Everybody makes mistakes” (“todos cometemos erros”), sim, verdade, o seu maior talvez tenha sido decidir privar o mundo de concertos como o que deram hoje.

Os clássicos do grupo ouviram-se quase todos: “Daft Punk is playing at my house” – logo a segunda da noite – “I can change”, “New York I love You but you're bringing me down”, “Dance Yrself Clean”, “All My Friends” – a última que tocaram – enfim, foi um total regresso à década passada e aos sucessos que fizeram da banda uma referência da música eletrónica e lhe valeram várias nomeações aos prémios Grammy.

Compactá-los à música eletrónica é injusto, porque os LCD Soundsystem conseguem um feito melhor: juntam dois géneros que à partida parecem inconciliáveis, o rock e a eletrónica. Poucas bandas poderão dizer, aliás, que conseguem colocar o seu público a alternar entre o headbang e a dança, como eles fazem. Para os que não acreditam, aqui na Praia Fluvial do Taboão há milhares de testemunhas que o podem confirmar.

Eram talvez o nome mais aguardado desta 24.ª edição do festival minhoto e será difícil superar a sua atuação. Às vezes não era preciso música para arrancarem aplausos do público, bastava um “hi everybody” de James Murphy e a audiência ia à loucura. Sem dúvida a banda que mais entusiasmo suscitou na audiência até agora. Talvez fossem também as saudades a dar uma ajuda, não só causadas pela ausência da banda do mundo da música durante cinco anos, mas também pela ausência dos LCD de Paredes de Coura há 12 anos. Estiveram cá em 2004, ano em que tocaram no palco “After Hours”, depois de finalizada a atuação dos Motorhead, um concerto que a banda não esqueceu e James Murphy fez questão de mencionar hoje, deixando uma mensagem especial.

Já tocámos aqui, não sei bem há quantos anos. Lembro-me que tocámos depois dos Motorhead. O resto deste set é dedicado ao Lemmy” – vocalista dos Motorhead, que faleceu no ano passado.

Já na reta final do concerto, Murphy acabaria por agradecer ao público português por ter vindo com um “muito obrigado”, dito na língua de Camões. Sem direito a encore, abandonam o palco depois de “All My Friends” e ao som de uma chuva de aplausos, soltando os festivaleiros para o palco “After Hours”, onde tocaram de seguida os “Suuns” e “Enchufada 10 anos (Rastronaut e Branko)”.

Antes dos “LCD” passaram pelo palco Vodafone outros norte-americanos, os Thee Oh Sees, que regressaram a Paredes de Coura dois anos depois da última vez. Com álbum novo na bagagem, “A Weird Exits”, lançado na semana passada, vieram deixar o que fazem de melhor: uma boa dose de garage-rock.

Energéticos e muito barulhentos (no bom sentido) deram o concerto mais “pesado” desta edição, para agrado dos adeptos das guitarras. Uma boa dose de rock que contrastou com a sonoridade dos seus antecessores, os britânicos Sleaford Mods.

As rimas carregadas de crítica aliadas a ritmos eletrónicos ecoaram no anfiteatro natural da Praia Fluvial do Taboão, causando uma rutura no tipo de sonoridade que vinha sendo tocado até então pelos norte-americanos Whitney e Riley Walker. Um bom concerto que conferiu uma boa transição dos ritmos mais calmos para os mais acelerados.

Ritmos calmos, mas nem por isso desinteressantes. Riley Walker abriu o palco com um concerto em que o instrumental foi rei, perfeito para o arranque do segundo dia, quando grande parte das pessoas ainda admiravam o palco sentadas na relva. Os Whitney, por sua vez, que vieram apresentar o trabalho de estreia, “Light Upon The Lake”, chegaram ao palco prontos para animar o público. Comunicativos e bem-dispostos deram um bom espetáculo de final de tarde. Vale destacar uma confissão do vocalista e baterista da banda, Julien Ehrlich, que disse que gostava de ter vindo estudar para Portugal, o seu país preferido da Europa.

Passaram cinco anos, mas finalmente consegui estar aqui”, disse.

No palco secundário – Vodafone.FM -, que foi inaugurado hoje, ouviram-se também bons sons, leia-se quatro boas surpresas. Joana Serrat, e o seu folk, Bed Legs, com a energia do rock, Algiers, com o rock-experimental, e a britânica Shura, com o eletropop.

Para amanhã, terceiro e penúltimo dia de festival, estão planeados os concertos de Kevin Morby, Crocodiles, King Gizzard & The Lizard Wizard, The Vaccines e Cage The Elephant.