Carlos do Carmo, galardoado com um «Lifetime Achivement Grammy», prémio que distingue carreiras de referência no panorama internacional, é considerado pelo musicólogo Rui Vieira Nery «um símbolo de tradição e inovação no património do fado».

Carlos do Carmo e Rui Vieira Nery protagonizaram a candidatura do fado a Património Imaterial da Humanidade, distinção que viria a ser atribuída pela UNESCO em novembro de 2011.

O fadista, de 74 anos, tem uma carreira artística de 50 anos e estreou-se na casa de fados lisboeta O Faia, propriedade dos seus pais.

Numa entrevista à Lusa, o fadista contou que começou a ouvir fado ainda dentro do ventre da mãe, destacando também a importância das idas às verbenas para ouvir fados, acompanhado pelos pais, e «a escola que era O Faia onde se ouvia muitos fadistas, designdamente Alfredo Marceneiro», e a sua mãe, criadora de êxitos como «Maria Madalena» e «Foi na travessa da Palha».

Do seu repertório constam vários temas assinados por Barbosa du Bocage, Almeida Garrett, Frederico de Brito, José Carlos Ary dos Santos, Joaquim Pessoa, Manuel Alegre, José Saramago, Vasco Graça Moura, Nuno Júdice, Júlio Pomar, Maria do Rosário Pedreira e compositores como Victorino d'Almeida, Fernando Tordo, Nuno Nazareth Fernandes, Martinho d'Assunção, José Luís Tinoco, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, José Niza, Mário Moniz Pereira e Alfredo Marceneiro, entre outros.

O primeiro disco foi editado pela Alvorada, em 1963, com o título «Mário Simões e o seu Quarteto apresentando Carlos do Carmo», ao qual se seguiu, em 1964, «Carlos do Carmo com a Orquestra de Joaquim Luís Gomes».

Em 1967 a Casa da Imprensa distinguiu-o com o Prémio Melhor Intérprete e, em 1970, atribuiu-lhe o Prémio Pozal Domingues para o Melhor Disco do Ano, o seu primeiro álbum, «O Fado de Carlos do Carmo», em 1969.

Ao longo da carreira somou mais de duas dezenas de álbuns, entre antologias, registos ao vivo e de estúdio, como o mais recente «Fado é amor», em que partilha a interpretação com nomes como Mariza, Camané, Ricardo Ribeiro, Marco Rodrigues e Aldina Duarte, entre outros, ou o CD gravado no ano passado com a pianista Maria João Pires.

Em 1976 Carlos do Carmo foi convidado pela RTP para representar Portugal no Festival da Eurovisão, em Haia, com a canção «Uma flor de verde pinho».

Da sua longa carreira destacam-se, entre outros fados, «Oxalá», «A guitarra e o clarim», «Casa do Fado», «Fado Maestro», «Zé do Bote», «Bairro Alto», «A rua do desencanto», «Por morrer uma andorinha», «Trem desmatelado», «Fado dos Cheirinhos», «Fado do Cacilheiro», «O Homem das Castnhas», «Balada para uma velhinha» e o «Fado do Campo Grande».

A carreira internacional de Carlos do Carmo desponta em 1970, tendo atuado em Angola, no Brasil, ao lado de Elis Regina, Alemanha, Luxemburgo, França e Espanha, onde esteve no passado dia 21 de junho, no Festival de Fado de Madrid.

Entre as várias distinções e prémios que recebeu, como o título de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro, em 1987, destaca-se o Goya para a Melhor Música Original de 2008, atribuído a «Fado da Saudade», um poema de Fernando Pinto do Amaral, interpretado na melodia tradicional Fado Menor em Versículo, atribuída a Alfredo Marceneiro.

Carlos do Carmo interpreta este tema no filme «Fados», de Carlos Saura, um dos projetos da candidatura do fado a Património Imaterial, da qual o fadista foi um dos embaixadores, e que venceu há três anos.

O criador de «O amarelo da Carris» registou várias colaborações, dentro e fora do universo fadista, nomeadamente com Camané, Marco Rodrigues, Inês Duarte, Sérgio Godinho, José Cid, Sam the Kid, Pedro Abrunhosa e Bernardo Sassetti, entre outros.