O pianista francês, de origem italiana, Aldo Ciccolini, virtuoso mundialmente reconhecido, morreu na madrugada de sábado para domingo, aos 89 anos, na sua residência nos arredores de Paris, noticiou esta segunda-feira a France Presse.

«Ele esteve hospitalizado algumas semanas e regressou a casa na semana passada», disse à agência noticiosa francesa o seu agente e amigo Paul Blacher.

Nascido em Nápoles, no sul da Itália, a 15 de agosto de 1915, no seio de uma família de melómanos, Aldo Ciccolini era o decano dos grandes mestres do teclado.

Ciccolini, que viria a ser professor de António Rosado e Artur Pizarro, entre outros pianistas portugueses, teve como mestre inicial, de piano e composição, o italiano Paolo Denza, herdeiro da escola francesa, antes de ingressar nas classes do pianista de origem suíça Alfred Cortot, cujo nome continua a ser referenciado entre os grandes intérpretes do século XX, e a pianista francesa Marguerite Long, indicada como intérprete privilegiada de Maurice Ravel.

Em 1949, Ciccolini venceu o concurso Marguerite Long-Jacques Thibaud, na capital francesa, cidade onde se instalara, após a II Guerra Mundial. A sua carreira internacional iniciou-se em 1950, com a atuação em Nova Iorque, sob a direção de Dimitri Mitropoulos.

A Agência France Presse (AFP) destaca que Aldo Ciccolini se apresentava, na época, não só como grande defensor dos compositores franceses mais conhecidos, como Debussy e Ravel, como fazia questão de interpretar outros, negligenciados pela crítica dominante da época, como Erik Satie, Charles-Valentin Alkan, Déodat de Séverac, Emmanuel Chabrier ou Alexis de Castillon.

Solista de grandes formações sinfónicas internacionais, Aldo Ciccolini destacou-se na interpretação de Rachmaninov, Grieg e Borodine, sob a direção de maestros como André Cluytens, Pierre Monteux, Charles Munch ou Wilhelm Furtwängler, mas também no repertório pré-romântico para instrumentos de tecla, em particular Johann Sebastian Bach ou Domenico Scarlatti. .

Em 1972 recebeu o Prémio da Academia Francesa do Disco e a sua gravação dos concertos de Ravel valeu-lhe o Prémio da Academia Charles Cros, em 1976.

As integrais das obras para piano solo do compositor checo Leos Janacek e do compositor alemão Robert Schumann, editadas em 2003, valeram-lhe o Diapason d'Or. Em 2006 foi novamente distinguido pela crítica com a reedição das 32 sonatas para piano de Beethoven.

Sobre a obra completa para piano solo de Erik Satie, o guia norte-americano «NPR» mantém que as gravações de Ciccolini, efetuadas entre 1966 e 1971, «são as melhores das melhores» e permanecem «sem rival», opinião que o guia «Penguin» partilha considerando «idiomática» a sua interpretação.

Como pedagogo, não gostava de ser visto como um mestre a imitar, antes como um transmissor de paixão pela música: «Não há nada mais emocionante do que ver o talento de um jovem crescer como uma flor», afirmou o pianista.

Aldo Ciccolini destacou-se no repertório da música francesa dos séculos XIX/XX, estando as suas interpretações de Erik Satie, Saint-Saëns ou Debussy entre as primeiras escolhas de publicações como os guias «Penguin» e «Gramophon» de música clássica.

A sua discografia é extensa. As gravações que fez para a His Master’s Voice, entre 1950 e 1991, e, mais tarde, as realizadas para a EMI France, foram reeditadas, recentemente, numa caixa de 56 CD.

Entre os seus discípulos contam-se os pianistas portugueses António Rosado, Artur Pizarro, Paulo Oliveira e João Bettencourt da Câmara, assim como intérpretes de gerações mais recentes, como Nicolas Angelich e Jean-Yves Thibaudet.

Presente várias vezes em Portugal, em particular nos festivais de Sintra e do Estoril, atuou, há pouco mais de dez anos, no VI Festival de Música de Mafra.

Na altura apresentou um programa que evocou as relações de Saint-Säens com Portugal, tendo interpretado, entre outras peças, a versão para piano de «Une Nuit à Lisbonne», dedicada ao rei D. Luís, e uma peça para órgão, encomendada ao compositor, por D. Manuel II, já no exílio.