Charmoso Rufus encanta meio Coliseu
Concerto tornou-se num espetáculo intimista: músico não calçou os chinelos, mas sentiu-se em casa
Por: Judite França/ | 2012-06-08 15:17Rufus Wainwright tem classe mesmo quando se engana. Uma entrada fora de tom, uma palavra que falha nas longas letras das
canções: não tem mal, todos aplaudem no Coliseu de Lisboa, que pouco mais encheu do que a plateia na noite de quinta-feira.
Aliás,
com uma assistência bem mais pequena do que o compositor já recebeu na mesma sala de concertos, o espetáculo acabou por ser
tão intimista como a abertura, com o tema «Candles», do novo álbum «Out of the Game»: sala às escuras, apenas algumas velas
tímidas. E só a voz de Rufus Wainwright, a voz inconfundível de quem enche todas as palavras que canta e as dedica aos que
mais ama: ao noivo, de quem confessou saudades, à filha ainda bebé, à mãe que faleceu há dois anos, ao pai que é «também um
grande compositor».
O cantor, que vive em Toronto, fez várias concessões, passeando pelos álbuns anteriores, e conversou
com o público sobre como gosta de Lisboa, como já cá veio tantas vezes e como pode dizer disparates, arrancando gargalhadas
de um público fiel. Talvez por isso Rufus se sinta em casa. E mesmo quando o fôlego não foi suficiente, preferiu assumir perante
a plateia indulgente e voltar atrás: «Como não consegui, vou retomar mais ou menos aqui....». E repetiu e o público agradeceu.
Como agradeceu os dois encores de pé.
Prestes a oficializar a relação com Jörn Weisbrodt - o enlace será dado
em Agosto -, Rufus Wainwright revela ter queda para casamenteiro e tentou até formar um casal na primeira fila. Mas não conseguiu:
«Straight or gay?». O rapaz é gay e Margarida continuou a dançar. É pena: «Seriam tão felizes», garante.
Tão
feliz como o músico nova-iorquino parece ser, vestido num fato berrante, dançando e sorrindo, deixando para trás a visita
à Aula Magna, pouco depois da morte da mãe, recordada por muitos como um concerto duro em que o cantor não permitiu sequer
palmas. Nesta quinta-feira, valeu tudo: até puxar demasiado pela voz, acusando o desgaste de uma tournée prestes a terminar
e que esta sexta-feira ainda passa pelo Porto.
Rufus é definitivamente carismático. Pode fazer o que quiser em palco.
Cantar de óculos de sol, usar roupa bizarra, dizer que português soa a inglês ao contrário, trilhar notas ou repetir palavras
incompreensíveis com a mesma elegância.
E cantar todo o novo álbum, de fio a pavio, entremeando-o com músicas de
outros tempos. Wainwright ainda teve tempo para fazer piadas sobre «Greek Song» - «De um tempo em que a Grécia era diferente»
-, passou por «Milwaukee at Last!», com «Going To a Town», recordando de novo a mãe Kate McGarrigle, sem esquecer o êxito
«Cigarrettes and Chocolate Milk», do álbum «Poses», no encore, nem «One Man Guy», música do pai Loundon Winwright III.
No
alinhamento, Rufus incluiu os álbuns «Release the Stars» e «Want One» e composições da autoria dos pais, em que os membros
da banda ganharam destaque como solistas. Mais de 20 músicas, duas horas de concerto, dois encores, e uma versão animada
de «Bitter Tears», o hit mais dançável do último álbum, deixaram o Coliseu de Lisboa satisfeito, com a perfeita sensação
de que, quando regressar, vai parecer que Rufus não foi para muito longe.

