«José Afonso está ao nível de Dylan ou Lennon»

No dia em que passam 25 anos sobre a sua morte, Zeca é recordado como «muito mais do que um cantor de intervenção»

Por: Redacção/ | 2012-02-23 11:05
José Afonso

«Muito mais do que um cantor de intervenção» e «um dos grandes criadores musicais do mundo». É assim que José Afonso é recordado esta quinta-feira, no dia em que passam 25 anos sobre a sua morte.

Considerado durante muito tempo um músico de intervenção, José Afonso é, para Francisco Fanhais (companheiro de cantigas e de estrada de Zeca) e para o jornalista Viriato Teles, «muito mais do que um cantor ou um músico de intervenção», escreve a agência Lusa.

Essa designação serve mesmo, para Francisco Fanhais, «para menosprezar toda a parte poética e musical que José Afonso revelou e é um álibi muito bom para que os divulgadores de música o possam banir com toda a tranquilidade».

«Cada uma das canções de José Afonso faz parte de um conjunto de grande valor musical e poético que, penso, está ainda por descobrir», disse Francisco Fanhais à Lusa.

Reedições assinalam os 25 anos sobre a morte de José Afonso

Também o jornalista Viriato Teles, autor do livro «As voltas de um andarilho - Fragmentos da vida e obra de José Afonso», considera que José Afonso «está ao nível de um dos grandes criadores musicais do mundo».

«Ao contrário do que habitualmente fazemos, que é compararmos os portugueses com artistas estrangeiros, eu acho que o Pete Seeger é o Zeca Afonso norte-americano», disse o jornalista, sublinhando que José Afonso «está ao nível de um Bob Dylan, John Lennon, Léo Ferré ou mesmo de um Jacques Brel».

Considerar a obra de José Afonso apenas do ponto de vista da cantiga de intervenção «é do mais redutor que existe, até porque mesmo nesse campo ele esteve sempre à frente do tempo dele», disse Viriato Teles à Lusa, acrescentando que a obra musical de José Afonso era «tão complexa do ponto de vista poético como musical».

«Talvez por não ter formação musical, a obra de José Afonso era bastante complexa, já que ela mudava de compasso a meio das cantigas e isso tornava tudo bastante difícil e especial», frisou.

Viriato Teles não hesita mesmo em afirmar que José Afonso era «um génio, tal como Carlos Paredes» e que, por isso mesmo, quando José Afonso morreu «Paco Ibañez disse que Zeca teve azar de ter nascido português».

«Se tivesse nascido nos Estados Unidos estaria ao nível desses grandes criadores mundiais», disse, na altura, Paco Ibañez, lembrou Viriato Teles.

O jornalista invoca mesmo o facto de a obra de José Afonso ser a obra de um cantor português «mais divulgada a nível mundial».

«Basta ver a quantidade de versões de canções do Zeca, e não apenas a de "Grândola vila morena", que existem no estrangeiro», disse, exemplificando com os casos de Charlie Haden e Carla Bley, Nara Leão ou as de Pi de la Serra e Luis Pastor.

«Pi de La Serra e Luis Pastor consideram mesmo que José Afonso foi o pai da nova música espanhola», sublinhou.

«Se há de facto um músico português que se universalizou foi o Zeca, se calhar tanto ou mais do que Amália, embora esta tenha tido mais visibilidade», frisou Viriato Teles.

Viriato Teles e Francisco Fanhais concordam ainda num outro ponto: «Apesar de reconhecido, José Afonso não tem ainda hoje o estatuto que devia ter na música».

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