Era o concerto mais aguardado e o que fez esgotar o segundo dia de NOS Alive, mas não convenceu à primeira. Radiohead fecharam a sexta-feira ao som de "Karma Police" depois de revisitarem muitos dos êxitos que marcam a sua carreira. Mas, comecemos pelo início.

Segundo dia de festival, segunda enchente. O NOS Alive esgotou os três dias e hoje foi bem visível o mar de gente prometido desde início.

Assim que soaram os primeiros acordes no Passeio Marítimo de Algés, pela mão do trio britânico de musica electro-pop Years & Years, já centenas de pessoas enfrentavam o tórrido sol frente ao palco principal para não perderem pitada do que lá se iria passar até à uma da manhã. 

Formados em 2010, os Years & Years atingiram os tops com "Kings" em 2015 e quatro meses mais tarde com "Shine". Por isso mesmo, não será de admirar que perante uma plateia ainda diminuta, este trio tenha puxado do seu segundo single mais conhecido para agarrar o público e levá-lo a acompanhar a banda até chegar a "King". 

Enquanto os britânicos mostravam de que massa eram feitos no palco principal do festival, ali ao lado, no Clubbing, tinha início o "NOS Alive e os Nossos", uma iniciativa do festival que teve como curador do dia o DJ Kamala. Ao longo de várias horas atuaram nomes portugueses como os Vizinhos do Lado, Mundo Segundo e Sam The Kid, HMB e Filipe Gonçalves - que trouxeram Carminho e Agir ao palco - e Da Chick - que esteve à conversa com a TVI24 durante a tarde - entre outros.

Já no palco Heineken coube aos Soulvenir, a banda vencedora da 1.ª edição do EDP Live Bands Brasil , a honra de abrir o dia. Seguiram-se Jagmar Ma, Courtney Barnett, Carlão e Father John Misty, que atuou ao mesmo tempo de Tame Impala. 

A salvação que veio do palco ao lado

"Josh, we love you", gritava alguém ao nosso lado enquanto Joshua Tillman, ou Father John Misty, atuava no palco Heineken do NOS Alive. E com razão. O norte-americano foi uma das estrelas da noite com um concerto à sua imagem: um momento de catarse. Porque é na música que, afinal, reside a salvação.  

Com a farta barba que o carateriza, Father John Misty é um músico irrequieto, expansivo e com uma pitada de extravagância. Percorre o palco de uma ponta à outra, atira a guitarra, solta o microfone, vai ter com público, regressa ao palco, vai ter com o público outra vez. É assim que exorciza os seus fantasmas - que tantas vezes também podem ser os nossos. É um processo de libertação que começa, naturalmente, nas letras das canções. Em "Bored in the USA" chega mesmo a pedir: "Save me, white Jesus" (Salva-me, Jesus branco).

Foi a primeira vez que atuou em Lisboa, embora já tenha passado por outros palcos nacionais. E triunfou. Mesmo com o concerto de Radiohead quase a começar, o público não arredou pé do palco Heineken, enfeitiçado pelo génio e pela loucura de Father John Misty. 

Ao mesmo tempo que Father John Misty, no palco principal atuavam os Tame Impala, que trouxeram ao NOS Alive psicadelismo sexy diretamente da Austrália. O grupo deu um concerto enérgico e vibrante que deixou o público ao rubro. De tal forma que, não raras vezes, corpos mais despidos do que o normal foram apanhados em flagrante nos ecrãs do palco principal. 

Já sabíamos que a banda era muito acarinhada pelo público português, sobretudo depois dos dois últimos álbuns: "Lonerism" abriu a porta a músicas mais catchy e "Currents", de 2015, confirmou a tendência. Para trás, ficou um primeiro álbum, "Innerspeaker", repleto de efeitos e texturas que proporcionaram composições menos convencionais, mas mais interessantes.

Ainda assim, mesmo sabendo que Tame Impala já tem um lugar coeso no coração do público português, foi impressionante o encantamento entre a banda e os fãs que envolveu todo o concerto. Sobretudo nos temas mais conhecidos claro, como "Let it Happen" ou "Elephant". Corpos frenéticos, saltos, mãos no ar. Até houve direito a uma explosão de confetis.

Antes, tinham atuado os britânicos Foals, que regressaram ao recinto em que se estrearam em Portugal, em 2011. A banda de Yannis Philippakis trouxe o último álbum "What Went Down". Um disco mais rock ou, se preferirmos, com uma "paisagem mais dramática" - usando as palavras do guitarrista Jimmy Smith, que esteve à conversa com a TVI24, algumas horas antes do concerto. 

Há muito que o grupo de Oxford conquistou um público vasto. Longe vão os tempos da atmosfera experimental e undergorund que carateriza o primeiro álbum da banda, "Antidotes" (2008). E aqui, isso notou-se. A energia dos riffs dos Foals contagiou o público com os êxitos do último álbum como "What Went Down" ou "Mountain At My Gates", ou temas do anterior "Holy Fire" como "You Don't Have my Number". Pelo meio, houve a canção que impulsionou a carreira do grupo: "Spanish Sahara", de "Total Live Forever". 

Um pequeno detalhe: depois de terem reagido aos resultados do referendo do Reino Unido sobre a União Europeia, em Glastonbury, o Brexit voltou a ser lembrado pelos britânicos. O baterista, Jack Beaven, usou uma t-shirt onde se lia "Não quero acabar contigo União Europeia".

Senhoras e senhores: Radiohead

Foi como se de repente tudo parasse para que os Radiohead subissem ao palco. Às 22:45, quando a banda de Thom Yorke subiu ao palco, fez-se silêncio no Passeio Marítimo de Algés. Não era fado que se ia cantar, mas eram os Radiohead que regressavam a terras lusas depois do concerto, no mesmo local, em 2012, e depois de quatro anos afastados dos palcos.

No último concerto em Lisboa, prometeram que não voltariam a demorar dez anos - tinham dado cinco concertos em Portugal em 2002 - para regressar aos braços do público português (e não só, porque há muitos estrangeiros neste festival). E cumpriram. A banda inglesa voltou a Portugal para apresentar o álbum "A moon shaped pool", que reúne temas novos e outros que já tinham sido esboçados ou tocados ao vivo há vários anos.

O concerto começou morno com o último tema da banda - “Burn The Witch” - e quem o via das laterais pareceu demorar a entender que o mesmo já tinha arrancado. As conversas de café prolongaram-se durante largos minutos, tal como as visitas às redes sociais e muitas selfies enquanto Thom Yorke cantava ali a uns metros de distância. Talvez a culpa tenha sido do som pouco límpido que vinha do palco, talvez tenha sido culpa da falta de interação da banda com o público. 

Mas aqueceu e fechou com chave de ouro - "Karma Police" - não sem antes visitar a música mais aguardada por quase todo o público que estava no Passeio Marítimo de Algés. Assim que as primeiras batidas de "Creep" - que regressou ao alinhamento depois de vários anos ausente - soaram no segundo encore, a multidão não se fez rogada e começou de imediato a mostrar que a letra tinha sido muito bem decorada.

Pelo meio, clássicos como "Reckoner", "Idioteque", "Street Spirit (Fade Out)" e, claro, a longa "Paranoid Android".

Ao longo de cerca de duas horas de concerto, a banda passou por 24 músicas, entre as quais alguns temas do último álbum "A Moon Shaped Pool" - lançado há cerca de dois meses -, e que não adormeceram os muitos que optaram por assistir ao espetáculo sentados um pouco por todo o recinto.

O fim dos concertos no palco principal não ditou o fim da festa e apesar de muitos terem deixado o espaço, também houve quem rumasse para os palcos mesmo ali ao lado. Afinal, Da Chick tinha prometido um combate em palco e uns metros mais à frente os Two Door Cinema Club abriam a noite para os Hot Chip, que encerrou o segundo dia de NOS Alive.

O terceiro e último dia de festival, que celebra a sua 10ª edição, conta com a presença dos Arcade Fire e M83 no palco principal.